As Bombas

Edição: 684 Publicado por: Rodrigo Magalhães Teixeira em 13/02/2020 as 09:47

 
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No dia cinco de outubro de 1930 dezenas de soldados legalistas desembarcaram na Estação Rio Prêto. Antes do meio-dia já haviam tomado o pacato Parapeúna, distrito de Valença, e lá cercaram a ponte que faz a ligação com a vizinha cidade mineira de Rio Preto, para onde se dirigiram alguns oficias. Chegando do outro lado do rio Preto, intimaram o Tenente Marcelino, do lado do partido dos Jagunços, para que esse entregasse Rio Preto àquelas tropas legalistas. Consultado, o então líder político, chefe dos Jagunços e Intendente Municipal, Coronel Demerval Moura de Almeida, pediu duas horas de prazo para decidir se entregava ou não a cidade.

Eram precisamente três horas e quarenta minutos da tarde daquele cinco de outubro quando um avião surgiu por detrás dos morros do Paiolim, nas proximidades de Pentagna, no sentido de Rio Preto. As pessoas saíram para a rua e viram, pela primeira vez sobrevoando Parapéuna e Rio Preto, um aeroplano, com barulho muito mais forte que o motor dos “fordecos” que poucos abastados possuíam naquelas localidades.

O avião era vermelho, voava a 1.500 metros de altitude, bem acima do prédio de dois pavimentos da estação do trem de Parapeúna, assim como das palmeiras da Matriz Nosso Senhor dos Passos de Rio Preto. E, já na sua segunda evolução por cima do jardim da cidade mineira, bem mais baixo, as pessoas puderam até mirar o piloto dentro dele. Mas, não mais que de repente, ouviu-se um estrondo, ensurdecedor e, uma nuvem de fumaça emergiu em Parapeúna, próxima à ponte.

Antes que o avião voltasse, os grupelhos de pessoas dispersaram-se pelas ruas daquele pacífico distrito de Valença. Todos corriam, sem saber para onde ir. “É bomba! É bomba!” – gritavam desesperados, mulheres, homens e crianças, valencianos, brancos iguais a bonecos de cera, sem saber se iam para a Praça da Estação ver o que tinha ocorrido, ou se corriam para os Bastos, os Maias, os Lopes ou algum outro bairro mais distante.

Mas, muito mais depressa do que se podia esperar, ouviu-se novo estrondo. A terra tremeu, as pessoas quase que se levantaram do chão ao ressonar o tremendo “Buuumm” da segunda bomba lançada pelo aeroplano, que por sua vez caiu perto do cemitério Nosso Senhor dos Passos, no Morro dos Pintos, na limítrofe Rio Preto.

Parapeúna e Rio Preto se viram abaladas, tremuladas pelas explosões de duas bombas jogadas pelas forças do governo de Washington Luiz para atemorizar a cidade mineira, que era administrada na época pelos Jagunços, adversários do governo e apoiadores da Aliança Liberal (cujo líder no país era Getúlio Vargas), tendo à frente o presidente da Câmara, Coronel Demerval, cuja moradia foi o alvo da segunda bomba. A primeira bomba tinha sido jogada para destruir a ponte sobre o rio Preto.

Naquele tumultuado tempo da Revolução de 1930, os Jagunços eram representados ainda por Felício Marques de Moraes, Antônio Lima, Joaquim Lima e João Barão. Do lado contrário, a favor dos legalistas, cujos líderes eram Júlio Prestes e Washington Luiz, estavam à frente os Jacobinos, representados por doutor Dolor Gentil Ramalho Pinto, Joaquim Martins Ferreira, Juca da Belmira, Leonel Ferreira e Alípio Araújo e Silva. Por força política desses últimos, no ano anterior (1929) o Presidente da República Washington Luiz havia visitado o município de Rio Preto. Justamente por isso foi a primeira cidade a ser “ocupada” pelas tropas da então legalidade, constituídas ali por um contingente da Polícia Militar fluminense.

O poder era disputado palmo a palmo em Rio Preto e as bombas foram jogadas justamente para intimidar os Jagunços a entregarem o poder. E logo depois que apareceu o aeroplano para jogar as bombas, o Coronel Demerval foi até ao meio da ponte, onde entregou simbolicamente a cidade às forças legalistas, sem derramamento de sangue.

Porém, com mais de quinhentos soldados espalhados por Rio Preto e Parapeúna, o povo, atemorizado, fugiu para as fazendas. As ruas ficaram completamente desertas e só os soldados legalistas andavam fazendo guarda. Assim permaneceu até o dia 25 daquele mesmo mês, quando houve a deposição de Washington Luiz e a Revolução terminou. Mas os estragos causados pelas bombas ainda hoje podem ser vistos, à beira do rio nas proximidades da cooperativa agropecuária, em Parapeúna, e em uma das laterais do cemitério Senhor dos Passos, em Rio Preto.

Artigo baseado em matéria publicada no jornal O Vale Riopretano, Ano V, Nº 45, de 12 de julho de 2003, de autoria do jornalista Aloísio Melo de Morais.

1 comentários

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José Ricardo de Almeida em 13/02/2020 às 14:23 disse:

Meu pai, José Vigorito de Almeida, o Zely, tinha 15 anos na época e morava no lado fluminense do Barreado, na Fazenda Ouro Falla, de meu avô, João Antônio de Almeida Netto, o Totó, partidário dos getulistas, de forma que meu pai e alguns companheiros tiveram que se refugiar nas matas, enquanto meu avô ficou detido pelas forças legalistas, lideradas pelos Araújo e Silva / Bastos (Nhô Brazinho, irmão do Alípio). Mas no final, foram vitoriosos e Barreado foi pacificada. Assim ouvia essas história desde a minha infância.
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