Divorciados

Edição: 344 Publicado por: Hélio Suzano em 06/06/2013 as 10:26

 
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Na quinta feira, ferido de “Corpus Christi”, resolvi que estava mais do que na hora de resgatar um compromisso assumido comigo mesmo: exercitar-me. E essa decisão foi tomada de forma quase radical: uma caminhada até a torre de Valença. Eu como bom valenciano que sou não conheço tudo que Valença tem a me oferecer.

Às seis horas da manhã lá fui eu, com minha camisa da sorte do Botafogo campeão estadual, tênis de caminhada, agasalho de moletom, cantil com água e umas barrinhas energéticas. Saí na sofreguidão dos que querem vencer a preguiça, com todos ainda dormindo em casa, numa aventura pra lá dos quarenta! Arrojado nas passadas iniciais, aos poucos fui cedendo ao bom senso das passadas comedidas durante o percurso. O tempo todo, sob uma vista linda, enevoada, blindada por um sol que começava lançar seus raios por sobre a cidade. Das passadas arrojadas do início, entrava agora na terceira fase, das passadas vacilantes. O cansaço batendo forte. No relógio, 7h30, e sob os olhos uma visão extraordinária, reconfortante de uma cidade plantada entre as montanhas. Ali estava a mão de Deus, e as mãos dos homens. A Catedral imponente como nunca havia percebido. Extenuado fiquei por longos minutos a contemplar a vista e a refletir sobre o que até então não conseguia enxergar.

Nestes dias tem sido impossível não se deprimir, se preocupar, se indignar, a não ser fechando os olhos para tudo que vem acontecendo com nossa cidade. Mas eu, aqui nestas alturas, me entristeço. Uma cidade tão linda, deixada aos horrores da falta de respeito, da banalização da politicagem, do pouco valor ao bom senso, dos eternos gargalos por onde escoam nossas esperanças. E nós feito ratinhos assustados dentro do buraco, esperando que dias melhores surjam. Não surgiram sem nossa participação.

Não conseguimos como cidade sair da crise. O problema é o ponto onde estamos agora. Valença não consegue sair de baixo; não consegue reagir; não consegue encontrar um equilíbrio entre as paixões políticas e a razão. A política se divorciando da cidade. O prefeito Álvaro aparentemente no rumo errado. Menos agressividade e mais estratégia teriam melhores resultados. Ao ficar preso aos rancores e sentimentos conspirativos, o prefeito criou incertezas e distorções. Ao se negar a ouvir e a discutir com a sociedade, com os sindicatos, com sua base aliada, com a oposição, o governo se isolou de forma preocupante.

A Câmara de Vereadores tem a prerrogativa legal de fiscalizar o Executivo, discutir leis e as demandas da cidade. Mas, no dia a dia, prevalecem os projetos pessoais, fruto de velhas práticas políticas e estruturas de poder. Uma boa parte tem ou é vinculada a alguma maquina política (seja ela assistencialista ou de grupo familiar). Esse perfil da Câmara expõe a dificuldade de relacionamento institucional dos poderes. É preciso habilidade, transparência e projetos estratégicos para compor com essas diferenças e garantir a governabilidade. São inquietações do momento que não são boas para a cidade.

Sei que pareço às vezes pessimista falando do cenário valenciano. Mas nós não somos só isso. E preciso distencionar a corda agora! O que não precisamos neste momento é de uma crise política. As dificuldades crescentes deste governo sem sua base aliada indicam que nós da oposição precisamos manter o bom senso, garantindo o mínimo de estabilidade para que não aconteçam fatos políticos/judiciais que infernizaram a política nos últimos quatro anos. O diálogo tem que prevalecer de parte a parte. Esgotá-lo significaria esgotar a esperança. E sem esperança não há futuro.

Então, mais descansado, me recomponho já de olhos bem abertos, e inicio a descida de volta à cidade. São 10h25 quando, com o pensamento nas pernas, me coloco ladeira abaixo. Tomara Deus que o prefeito, os vereadores da base aliada, a oposição e os sindicatos cheguem a um denominador comum que garantam estabilidade política. Isto seria bom para a cidade. O que digo aqui é mero, apenas bom senso.

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