Medalha ultrajada

Edição: 687 Publicado por: Marilda Vivas em 11/03/2020 as 08:39

 
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Ronaldinho Gaúcho

Sem carregar nas tintas mas, com pesar, por conta da recente prisão do jogador brasileiro em terras paraguaias em decorrência do uso de passaporte falso, me bate uma tristeza enorme saber que ele um dia foi agraciado, pela Academia Brasileira de Letras, com a Medalha Machado de Assis, a maior distinção concedida pela instituição.

A solenidade de entrega foi um show de horror. A começar pela identificação colocada na mesa destinada ao jogador: Dr. Ronaldinho. Ou seja, no mesmo dia em que se torna “imortal” é promovido a doutor por atos que lhe foram totalmente desconhecidos. Sim. Desconhecidos.

Ronaldinho Gaúcho nunca leu Machado de Assis. Perguntado por um jornalista qual foi o último livro que havia lido, meio sem jeito, desculpou-se, disse que não lembrava, mas que iria pedir conselhos aos imortais presentes.  Ai, Marcos Vilaça, que ao tempo presidia a entidade e autor dessa palhaçada, mandou descolar um livro de José Lins do Rego sobre o Flamengo e deu de presente ao novo imortal dizendo: “Assim você pode iniciar a sua vida de leitor, porque terá a necessária motivação.”

 

José Lins do Rego (1901-1957)

Naquele dia, o evento programado pela Academia Brasileira de Letras tinha por objetivo comemorar os 110 anos do nascimento deste que foi, ao lado de do prestigiado Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Rachel de Queiroz e Jorge Amado, um dos romancistas regionalistas mais prestigiosos da literatura nacional.

Lins do Rego nasceu no Engenho do Corredor, município de Pilar, na Paraíba, em 3 de julho de 1901.

Criado na fazenda de propriedade do avô materno, ali permaneceu até os doze anos no canavieiro, em meio aos resquícios da época das senzalas e do período glorioso das oligarquias rurais e ascensão da industrialização da cana com a chegada das usinas. Em decorrência, frequentemente cita, em sua obra, a vida no engenho, o autoritarismo dos senhores de engenho, e a decadência da estrutura econômica voltada ao ciclo da cana-de-açúcar, como ele mesmo intitulou.

Por caminhos traçados pela vida, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1935, onde veio a falecer em 1957.

E por que escrever sobre o “Mengão”? Simplesmente porque ele era apaixonado pelo time e seus craques, entre os quais o atacante Zizinho.

Segundo narrativas, ele não perdoou Zizinho quando este se transferiu estranhamente para o Bangu. Lins do Rêgo escreveu contra ele, desdizendo tudo o que, antes, era uma profunda e aparentemente definitiva admiração. Tipo torcedor fanático como se pode ver.  

Meu gosto pelo autor de “Menino de Engenho” foi despertado mesmo nas aulas de literatura ministradas por professores nos bancos do Instituto de Educação. Romance de características autobiográfica quando o narrador, o menino Carlos de Melo, vai dizendo de sua infância passada na fazenda de avô Zé Paulino, no Engenho Santa Rosa. A obra lhe deu o prêmio da Fundação Graça Aranha, estando inserida no Ciclo cana-de-açúcar, ao lado de “Doidinho”, “Banguê” e “Fogo Morto” – a obra-prima desse ciclo.

 

Opinião          

No dia em que recebeu a Medalha Machado de Assis durante um evento em que se comemorava os 110 de nascimento de Lins do Rêgo, Ronaldinho possivelmente não sabia nem quem foi um e nem quem foi o outro.

Sua inserção no cenário da imortalidade se deu em função do Vilaça ser, também um torcedor fanático do Flamengo. Ser torcedor apaixonado pelo Flamengo ou quaisquer outros times de futebol não configura problema nenhum. Ao contrário, mexe com os brios de uns e com a alegria de outros. Lins do Rêgo, por certo, se vivo fosse, estaria escrevendo crônicas fantásticas ante a fase de ouro vivida pelo time carioca, na atualidade. Não temos como negar. Mas, o que pega mesmo, é alguém se valer de uma instituição como a Academia Brasileira de Letras para dar vazão a certas idiossincrasias.

A Medalha Machado de Assis, por tabela, também acaba sendo atingida no episódio do passaporte falso.

Mas no Brasil, as coisas se dão desse jeito. Conceder a Medalha Machado de Assis durante um evento em que se comemorava o nascimento de Lins do Rêgo a um jogador do Flamengo porque o torcedor presidente da Academia Brasileira de Letras entende que assim deve ser, é uma face do Brasil que não se deve legitimar.

A legitimar, então que se receba como natural a diplomação ou concessão de honrarias de quem não merece ser diplomado, estando ou não atrás das grades.

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