Crise: oportunidade de humanização e perigo de depressão

Edição: 690 Publicado por: Elza Neffa em 01/04/2020 as 09:12

 
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Em pleno século XXI, no auge do desenvolvimento tecnológico, o mundo vivencia uma pandemia do COVID-19 e alguns elementos caracterizam esse evento planetário que emergiu na China, se espalhou pela Ásia e Europa e ora avança para o Continente Norte Americano e para a América Latina.

Chama atenção o fato de um vírus “invisível” demonstrar para a humanidade inteira que ela não tem controle sobre o planeta e que os rumos tomados pela espécie humana, em sua luta pelo desenvolvimento econômico exacerbado e pelo dever de ser feliz, distanciaram-na de sua missão transcendente de se tornar mais humanizada na relação interpessoal.

E eis que um invisível inimigo atinge a todos, em especial aos mais idosos e aos mais vulneráveis, de todas as raças, gêneros e classes sociais. Dos milionários aos pobres, essa gripe assusta e gera uma crise planetária, não somente por causa da doença em si, mas pela desestruturação dos sistemas produtivos e pela geração de mais pobreza. O que se vê são milhares de pessoas confinadas, sem trabalho e sem contato físico, em vivências solitárias com os seus demônios interiores rondando junto com o espectro da morte.

Todo o tempo, nos jornais, nos rádios, nas mídias sociais fala-se de crise e, embora haja controvérsias em relação ao significado do termo, alguns pensadores acreditam que o vocábulo deriva da palavra chinesa weiji, cujas sílabas apresentam os sentidos de oportunidade e perigo. Oportunidade dos seres se humanizarem e terem atitudes de solidariedade, de responsabilidade e de amor para com o Outro e perigo de adoecerem física e mentalmente, sucumbindo a depressões, em consequência de sentimentos de abandono, de não ser amado, de insatisfação com a realidade, de desespero e incapacidade de se reinventar, que passam a assolar muitos humanos em situações de estresse.

Com base na noção de que os organismos vivos são sistemas abertos em contínua troca com o meio ambiente podemos pensar que, em situações de mudanças ambientais prolongadas, tal como a vivenciada com o aparecimento do coronavírus na superfície da Terra, os organismos precisam se adaptar a essas mudanças e, na maioria das vezes, o processo de adaptação cria tensão ou estresse que, ao ser interiorizado, pode gerar doenças. O medo gera estresse e acentua nas pessoas lembranças de experiências desagradáveis, preocupações desnecessárias e atitudes pessimistas em relação à vida.

Isto significa que há doenças que são geradas por influências ambientais nos padrões psicológicos e nas relações sociais e, não só, por fatores biológicos.

Nessas situações de estresse excessivo, percebe-se que muitas doenças se manifestam, inicialmente como um desequilíbrio do organismo e, subsequentemente, como um distúrbio específico relacionado à configuração da personalidade do indivíduo. Em alguns casos, surge como depressão. A depressão pode emergir em momentos de estresse prolongado em que a pessoa se desanima das atividades comuns do dia-a-dia e, com o passar do tempo, perde a motivação da vida apresentando grande tristeza.

As manifestações depressivas podem ser causadas por uma combinação de fatores genéticos, ambientais e psicológicos, de forma regular ou intermitente. Entre os fatores de risco estão a história de depressão na família, determinados medicamentos, problemas de saúde crônicos, consumo de drogas e alterações significativas na vida, como a vivenciada com este isolamento físico social no cenário brasileiro e em alguns outros países do planeta. A depressão é diferente da tristeza, que é uma parte normal da vida e é menos grave.

Em tempos de múltiplas e insistentes notícias sobre o coronavírus e a recomendação de se permanecer em isolamento, é comum as pessoas sentirem-se deprimidas. Nesses momentos, é fundamental que cada um faça um consumo responsável das informações socializadas nas mídias para não ficar à mercê de pensamentos assustadores, incapazes de enfrentamento e passíveis de criarem sensação de solidão, desamparo e desolação.

Para se manter equilibrado e evitar que os pensamentos relacionados ao medo dominem a mente, trazendo insegurança e pânico, é preciso criar um ambiente higienizado e agradável, desenvolver a autoconsciência emocional, controlar as emoções e canalizá-las produtivamente através do planejamento de uma agenda diária com tarefas práticas e amorosas que auxiliem a desenvolver a tranquilidade, a disciplina, a perseverança, a paciência e a capacidade de compartilhar conhecimentos e afetos.

Algumas ações ajudam a ter foco e a controlar a ansiedade e a angústia. São elas:

limpar a casa, varrer, passar pano com água e sabão nos pisos, lavar os banheiros, as roupas, desinfetar o que for preciso, tais como os produtos comprados no supermercado; atualizar o livro de receitas culinárias; organizar um cardápio semanal relacionado à uma alimentação mais nutritiva e saudável; preparar as refeições diariamente; cultivar especiarias em vasos de plantas para utilizar na culinária – coentro, alecrim, salsa, cebolinha, manjericão, dentre outros; fazer trinta minutos de exercícios físicos, regularmente, seja ioga, aeróbica, pilates ou pular corda e caminhar pela casa; organizar a pasta de documentos; esvaziar as gavetas e jogar fora papéis, contas, propagandas e cartões sem serventia; separar todos os pertences não usados nos últimos meses para doar para quem precisa; restaurar o móvel antigo, lixando-o, desenhando-o, pintando-o; organizar os livros na estante por autores e etiquetá-los por prateleiras; passar a limpo a caderneta de endereços e telefones, caso necessite deles ao perder o celular; fazer uma limpeza no celular e nos emails, arquivando as informações importantes em pastas e jogando as obsoletas, na lixeira; escrever suas memórias em capítulos diários e os enviar, por email, para as crianças da família; escrever artigos para publicar em jornais ou revistas; telefonar para os amigos longínquos e relembrar bons momentos vividos juntos; escrever cartas e transmiti-las via email, para as pessoas que magoou ou que lhe magoaram para se desculpar ou para dizer que não guarda ressentimento; estruturar um projeto que beneficie a comunidade e direcionar ao deputado federal que você votou na última eleição sugerindo que o transforme em projeto de lei; engraxar todos os sapatos guardados; tirar os casacos de lã dos armários, passar escova com álcool e colocá-los para arejar; lavar os vidros, os cobertores e os tapetes da casa; limpar as malas e as bolsas, lavando as de tecido; consertar bainhas, pregar botões, trocar fechos quebrados das roupas que gosta muito; fazer um curso on line de desenho, filosofia, história, corte-costura, artesanato, língua estrangeira ou daquilo que gostaria de aprender e nunca teve tempo; separar as fotos de momentos agradáveis compartilhados com pessoas que ama e organizar um álbum para presenteá-las; descobrir as habilidades que possui e que possam ser úteis aos amigos, conhecidos e à comunidade onde vive, colocando-se à disposição para compartilhar o seu conhecimento a alguém interessado; visitar, na internet, as exposições dos museus mais famosos do mundo; organizar play liste das músicas preferidas e gravar no celular; ouvir e traduzir as músicas cantadas no idioma que pretende se aperfeiçoar; dançar, embalando o corpo pela melodia que gosta de ouvir; separar e enviar, por zap, pequenas poesias, frases de escritores famosos, lendas e contos, para os jovens da família; fazer exercícios mentais de visualização de lugares bonitos já visitados ou de frases que fortalecem o espírito, como por exemplo: sou saudável, sou amigo, sou amante da vida; fazer aos outros o que gostaria que fizessem a você.

Muitas outras ideias podem se juntar a essas e, assim, ampliar o rol das estratégias capazes de estimular as pessoas solitárias a entenderem que o significado da vida advém de atos simples e de pequenos gestos do cotidiano, cuja realização também amplia o auto- conhecimento no processo de humanização e a força para enfrentar o inimigo desconhecido.

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