Bolsonaro e os serviços essenciais

Edição: 696 Publicado por: Marilda Vivas em 13/05/2020 as 08:46

 
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Em tempos de isolamento social, na segunda-feira (11), o governo federal decidiu incluir barbearias, salões de beleza e academias de esportes na lista de serviços essenciais. Na prática, a medida assinada pelo presidente permite a liberação desses estabelecimentos comerciais para o funcionamento, em meio à pandemia de covid-19.

O texto do decreto afirma que precisam ser “obedecidas as determinações do Ministério da Saúde”. Questionado sobre o tema no mesmo instante em que o texto foi publicado, entretanto, o ministro da Saúde Nelson Teich disse que não sabia dessa decisão não tendo, portanto, nenhuma relação com a autorização.

“Isso não é atribuição nossa, é decisão do presidente. A decisão de atividades essenciais é uma coisa a ser definida pelo Ministério da Economia. O que eu realmente acredito é que qualquer decisão que envolva a definição, de uma atividade ser essencial ou não, passa pela tua capacidade de fazer isso de uma forma que proteja as pessoas”, afirmou.

 

Liberação não é automática

Na prática, ainda que o governo federal estabeleça quais atividades podem continuar em meio à pandemia, o Supremo Tribunal Federal (STF) já decidiu que cabe aos estados e municípios o poder de estabelecer políticas de saúde – inclusive questões de quarentena e a classificação dos serviços essenciais. Moral da história: rei reina, mas não governa: os decretos presidenciais não são uma liberação automática para o funcionamento de serviços e atividades.

Espera-se, naturalmente, que tais medidas não venham incentivar conflitos entre empreendedores e governos locais. Até aqui estamos caminhando. Entendo que no momento certo as autoridades municipais saberão definir o momento certo em que essas medidas poderão ser assimiladas.

Uma análise, rasteira que seja, dos boletins diários emitidos pela Secretaria Municipal de Saúde demonstram que o céu de Valença ainda não está para brigadeiro.

 

Céu de brigadeiro  

Essa é uma expressão da gíria carioca. Isso mesmo: não tem nada a ver com aquele docinho que muitos adoram, mas nem sempre podem comer. A língua, meus aros, é uma ferramenta de comunicação que permite as mais amplas possibilidades de construções simbólicas. Brigadeiro aqui refere-se ao mais importante posto de comando da Aeronáutica e ao fato do oficial que ocupa esse posto, em razão de sua importância, só fazer voos quando o céu apresenta condições favoráveis.

Segundo o historiador Rainer Sousa (brasilescola), a popularização do “céu de brigadeiro” aconteceu na medida em que os locutores de rádio das décadas de 1940 e 1950 tomaram conhecimento de tal prática militar. Sendo um veículo de comunicação onde as palavras têm grande impacto, vários locutores acharam interessante dizer que o dia tinha um “céu de brigadeiro”. Inicialmente, a curiosa gíria ganhou fama no Rio de Janeiro que, na época, ostentava o posto de capital do país e concentrava grande parte dos voos aéreos realizados.

Ou seja, vamos com calma que o mar não está para peixe, ainda. Oh, não! Uma outra expressão?  

 

Bom senso

O Brasil é um caso sério no cenário da crise sanitária mundial. Ultrapassamos onze mil mortes até o momento em que escrevo (11). Como assim afrontar os profissionais de saúde que estão na linha de frente da contaminação e das dificuldades de atendimento com atitudes de descrença de parte da população de que isso é real? Loucos são os que agem sob a certeza de que isso é um complô contra a nação. Não é. Traga para o seu universo. É possível que agora, nesse momento, cada brasileiro já consiga identificar, um caso que seja, de uma pessoa de suas relações e que tenha sido contaminada, para ficarmos no melhor dos exemplos. Por que a dificuldade de entregar à realidade?

 

Terrinha frouxa

O comportamento político de certos políticos de cidadezinhas que não conseguem romper o julgo do coronelismo é de dar nojo a qualquer um que tenha senso crítico. Não há limites.

Esses tipos não deixam de ser o reflexo de uma sociedade doentia, do tipo que acredita ser possível acabar com a corrupção no país, mesmo depois de ver o país acabado e continuar a ler, nas manchetes dos jornais, indícios de que essa prática não acabou.  

Não é uma pandemia que vai impor o fim desses tipos no cenário do país. Infelizmente, não. Vão continuar com a mesma conversinha fiada, com os mesmos tapinhas nas costas, com as mesmas lorotices de sempre.

As eleições estão aí, batendo em nossas portas. De novo vamos poder optar pelas exceções que existem e não são poucas. Também aqui podíamos nos esforçar para melhorar a nossa imagem no espelho. Não é possível passarmos pelo que estamos passando sem pensar em mudanças radicais e qualitativas. Há mudanças que só dependem de nós.   

 Historietas

Já se passaram muitos anos desde o acontecido. Naquela manhã o garoto levantou acesso, repetindo umas palavras de ordem. A mãe quis saber que diabo era aquilo. Onde aprendeu? Qual o sentido? E ele contente tratou de explicar que era o grito da galera que ele pertencia. Paciente, a mãe foi cavoucando o terreno, modo aprofundar. O menino disse que era assim: nos bailes, que agora frequentava, havia galeras de tudo quanto é bairro. Agrupados, cada um tinha seu grito especial. E esse era o dele. Quando o DJ falava o nome do bairro, todos os gritavam aquele lema a uma só voz. “É maneiro pra caramba¹”, concluiu.

A mãe não lhe deu uns tabefes, mas conseguiu fazê-lo entender os caminhos sombrios pelos quais ele estava sendo conduzido. Ele esperneou. Fez beicinho. Minimizou os efeitos. É possível até que tenha pensado o quanto é ruim envelhecer e ficar ultrapassado pelas modernidades da vida.

No fim de semana seguinte ele foi ao baile. E quando voltou para casa, chegou mudo. No máximo tomou um copo de água antes de ir dormir. No dia seguinte, levantou cabreiro, com poucas palavras. A mãe nada mais perguntou. Respondeu ao seu pedido de benção e foi tocar sua vida. Sabia que ele nunca mais deixaria de pertencer a si mesmo.

Naquela madrugada a coisa andou feia. Nada como escapar para vida.

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