A Revolta do Vinagre

Edição: 346 Publicado por: Samir Resende em 20/06/2013 as 10:51

 
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Um grito de revolta corre o Brasil com as manifestações juvenis deste já histórico Junho de 2013. Como se atingidos por uma bala de borracha no olho, ou uma bomba de efeito (i)moral, um violento (reativo) movimento surgiu para debater a questão do transporte público nas grandes cidades, agigantou-se e tornou-se uma grande explosão de indignação contra as reais tragédias que o Povo Brasileiro enfrenta. A violência do Estado, a corrupção, a manipulação da mídia (Rede Globo e Revista Veja), o cabaré bilionário que os empresários e os governos instalaram no país em nome da Copa e das Olimpíadas, juntaram-se num grito que pode se tornar um sopro de vida para toda a nação.

Existem outras tantas questões, inclusive de fundo ideológico, que hão de surgir, mas, parece que, no momento, chegamos ao fundo do poço e resolvemos procurar uma saída, ao invés de cavar mais. Vejo com esperança, mas também com ceticismo, esse momento. Esperança que nunca faltou no poder de movimentação da juventude, e ceticismo pelas armadilhas que o sistema político e econômico do país coloca para essa nova e auspiciosa conjuntura.

Parece que o país acordou no susto, quando as imagens capturadas pelos milhares de celulares mostraram jovens jornalistas com a cara cheia de sangue e policiais com cara de cachorro pit bull sentando a guaxa no lombo das pessoas de bem (jovens, brancas e remediadas). É claro que aqueles praças da PM não têm culpa exclusiva sobre a violência que se abateu na já violenta sociedade brasileira. Mas, protestos e repressão como esses, colocam para fora, como ferida purulenta, a hipocrisia diária em que se constrói o conceito de ordem nacional e de estado democrático de direito. Nascemos e vivemos sob a égide da bomba, pau e tiro na cabeça da população apartada (jovens, estudantes, operários, professores, retirantes rurais, e outras minorias que compõem o mosaico da exclusão social no Brasil). Para piorar, os meios de comunicação de massa dissimuladamente enganam a população, vitimando os opressores e criminalizando os oprimidos.

Uma hora ia dar M... como vaticinou o Capitão Nascimento, o herói nacional pseudo-fictício que a seminal obra cinematográfica Tropa de Elite criou. Estávamos tão dopados por esta mídia que não percebíamos a covardia cotidiana e a burrice dos aparelhos repressores (“PM de SP fecha a Av. Paulista para que os manifestantes não fechem a Av. Paulista”, “PM libera o uso de vinagre”). Dizem que a polícia é despreparada, eu discordo. A nossa polícia é muito bem preparada, treinada para ser violenta e repressiva, quando a “ordem” é posta em cheque. Mas, defender uma ordem que é excludente, corrupta e assassina não é papel de homens (e mulheres) de verdade, que juram amor e respeito a uma pátria livre, justa e soberana.

Em Valença, protestos não são novidades. O SEPE Educação, e agora o Sindsprev Saúde, defendem a organização classista na cidade com destemor. Uma instituição que ainda deixa a desejar no interesse dos oprimidos são as Igrejas (com algumas exceções), e talvez pelo eminente caráter conservador que elas carregam. Sinto falta de Igrejas pulsantes, nos moldes da que professa o Frei Beto e o Leonardo Boff. Tenho rezado diariamente para que elas comecem a fazer o debate político na cidade e que os bons pastores expulsem os vendilhões do templo, aproveitando o poder de mobilização que têm. Da nossa Universidade, infelizmente, eu não espero muita coisa, pois sua direção parece mais um trampolim político do que centro de divulgação do saber crítico, mas estes são assuntos para outro momento.

Enfim, agora cabe o desejo de força e saúde para a juventude indignada que está causando transtornos para defender os interesses que são de todos. Que a Revolução do Vinagre* dure para sempre, pois nada deve parecer natural e nada deve parecer impossível de mudar.

 

* Para quem não sabe, o vinagre combate a intoxicação por gás lacrimogêneo, e estava sendo cruelmente reprimido com a prisão dos estudantes que carregavam o líquido nas manifestações.

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