Valença em memórias

Edição: 356 Publicado por: Hélio Suzano em 28/08/2013 as 15:16

 
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Vejo Valença, mais do que um conjunto de ruas, casas, praças e igrejas, como um organismo vivo onde descansam as experiências e memórias, os sonhos e realizações, os fracassos e conquistas, as alegrias e tristezas de inúmeras gerações que por aqui passaram, pisaram estas pedras, dobraram estas esquinas. A Valença em memórias, exposta no estande da FAA durante os festejos da padroeira Nossa Senhora da Glória, trouxe a urgência de restabelecer um vinculo com o passado para que possamos estar abertos ao novo não como sinônimo de subversão de valores, mas como um elemento de reflexão atrelado às tradições, às conquistas, envelhecendo como um vinho, guardando sabores moldados pelo tempo, acumulados por gerações sucessivas.

Valença tem, ao longo dos tempos, seus símbolos aos quais devemos por obrigação, garantir que não se percam no esquecimento e na tendência destruidora, quase insana, de apagar o que passou. Uma história de grandes feitos, grandes figuras, notáveis conquistas desde os tambores coroados, passando por desbravadores, cristãos notáveis e outros tantos nem tão notáveis, religiosos, escravos, escravocratas, abolicionistas, nobres, imigrantes, renegados, opressores e oprimidos, intelectuais, loucos e visionários, empreendedores e fracassados que construíram a ferro e fogo, com mãos a terra, no café e no leite, nos trilhos do progresso, nos teares e rocas, no cabo da enxada e no fio da caneta, décadas de grande prestigio e investimento, passando por altos e baixos, sempre de pé, sem nunca perder de vista a certeza de seu destino promissor.

Por décadas assistimos à derrubada de centenárias edificações, destroçadas, sem que delas restem o menor vestígio. Todas as controvérsias com relação ao tombamento, sem muito critério, se desfaz em diante de seu objetivo de preservação da memória de Valença. Memória que não é ensinada nas escolas, deixando gerações crescerem sem assumirem compromisso com as lutas e glórias do passado. O resultado é uma geração alheia às conquistas, tropeços, símbolos e heróis de uma cidade bicentenária.

O que de fato vejo em Valença, nas redes sociais, nas conversas furtivas da Rua dos Mineiros, ou na efervescência de seu mercadão municipal, são opiniões, muitas opiniões críticas e construtivas, mas poucas, muito poucas atitudes concretas. Poucos estão dispostos a se comprometerem com a cidade. O que se ouve são ruídos, boatos transformando a cidade numa grande caixa acústica de fofocas, onde quase ninguém se dá ao trabalho de procurar a verdade, limitando-se a propagar o “ouvir dizer”. Assim foi com o fechamento da Santa Casa, onde boatos apontavam culpados num evento sem culpados, movido por iniciativa privada da Provedoria da Santa Casa. Agora mesmo, quando o deputado da cidade consegue junto ao Estado encampar o patrimônio da Santa Casa, pondo fim ao imbróglio da saúde, estrondos são ouvidos motivados por mentiras e inveja.

A juventude ocupando seu papel de propulsora das mudanças foi às ruas aqui também, ainda que sem foco definido. Agora é a vez dos políticos colherem das ruas a semente para florescimento desta mudança. Aos mais amadurecidos, cabe buscar a mudança sem generalizações e preconceitos, separando o joio do trigo. Existem grandes homens públicos hoje, como existiram no passado e, graças a Deus, continuarão a existir no futuro. O que precisamos é reforçar a transparência e a urgência de mobilização da sociedade em todos os amplos aspectos da vida social, política, econômica e cultural.

As reflexões sobre nossos dilemas devem ocorrer sob a perspectiva que dê conta de uma Valença viva. Nossa cidade é feita de história, memórias, conflitos, relações amistosas e hostis. As mudanças e transformações são necessárias para oxigenar o organismo vivo, mas só poderão ser concretizadas se em sintonia com os ensinamentos advindos da memória da cidade.

A festa da Glória foi o despertar desta consciência adormecida: do quão importante é a memória de uma cidade para o seu futuro.

Valença pode mais!

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