Arte contemporânea e cultura popular

Edição: 358 Publicado por: Jorge Ferreira Sorriso em 12/09/2013 as 15:33

 
Leitura sugerida

Depois aos poucos o nosso samba

Sem sentirmos se aprimorou

Pelos Salões da sociedade

Sem cerimônia ele entrou

Já não pertence mais a praça

Já não é samba de terreiri

Vitorioso ele partiu para o estrangeiro.

(Cartola, Tempos Idos, 1977)

 

 

No Brasil introjetamos ao longo de nossa formação uma dicotomia entre a cultura erudita e cultura popular, sendo que a arte estava intimamente ligada à primeira. Fomos e ainda somos, educados na lógica de que a arte é a produção de obras normalmente relacionadas aos padrões estéticos marcados pela ideologia das classes dominantes.

Por outro lado, as manifestações culturais das classes populares eram apenas um conjunto de hábitos e costumes de um determinado grupo. Neste caso a cultura popular carrega o estigma de um subproduto, visto que oriundo daqueles que não possuem acesso aos saberes determinados como “importantes” pelas classes burguesas.

Desta forma historicamente, a sociedade brasileira dividiu a arte, considerada sempre em seu caráter de erudição, da cultura popular.

Esse texto vem debater o quanto a trajetória da arte contemporânea brasileira está intimamente atrelada à cultura popular, demonstrando que, na contramão dos pensamentos e das práticas preconceituosas de uma parcela da sociedade as produções artísticas brasileiras na contemporaneidade beberam na fonte do constituído pela massa da população que habita os vários cantos e recantos deste país.

Na segunda metade do século XIX com a presença maciça dos afrodescendentes e de seus costumes nos grandes centros do país, constituiu-se uma outra estruturação das cidades no Brasil. Foi nesse período que a abolicionista Chiquinha Gonzaga passou a inserir, em seus saraus e suas músicas “civilizadas”, como a polca, os sons e os ritmos provindos da cultura negra, esta experiência resultou no aparecimento do maxixe, do corta-jaca e do chorinho, estilos musicais que podemos afirmar serem berço da música genuinamente brasileira.

Na literatura, Aluízio de Azevedo, nos trazia uma nova linguagem literária, inspirado nos cortiços, seus textos buscavam debater as questões sociais e, principalmente apresentavam o cotidiano do povo, com muito mais brasilidade. Em sequência vieram outros grandes escritores que, com o mesmo propósito, se utilizaram também do linguajar do povo, demonstrando que a arte de escrever também bebia da fonte popular. Quem pode negar o conteúdo popular de Grande Sertões Vereda de Graciliano Ramos?

Já a inspiração de Artur Azevedo, no seu teatro, calcou-se em personagens populares reais da cidade, deixando de lado as influências francesas, portuguesas, basicamente europeias até então tidas como obrigatórias em qualquer dramaturgia no Brasil, se tornando um dos primeiros teatrólogos brasileiros. Outros vieram em seguida e solidificaram a brasilidade em seus textos, tais como: Ariano Suassuna e Mário de Andrade.

A partir do século XX, as artes plásticas se retratavam nas telas de Tarcila do Amaral e Di Cavalcante, a cultura popular com acentuado destaque, mostrando a realidade brasileira com a criatividade que os consagrou como os revolucionários das artes no Brasil.

 

(CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO)

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