Arte contemporânea e cultura popular (Parte II)

Edição: 359 Publicado por: Jorge Sorriso em 19/09/2013 as 10:54

 
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A partir do início de século XX, as artes plásticas retratavam nas telas de Tarcila do Amaral e Di Cavalcante a cultura popular com acentuado destaque, mostrando a realidade brasileira com a criatividade que os consagrou como os revolucionários das artes no Brasil. Da mesma forma hoje podemos apreciar obras realizadas por artistas que, além de se dedicarem à música eram oriundos das camadas populares, tais como: Heitor dos Prazeres, Cartola, Nelson Sargento e Monsueto.

O Cinema Novo consagrou Glauber Rocha por sua obra, em que os padrões trabalhados em nada se convergiam às tradições europeias e americanas, que com características próprias, trazia ao debate temas nacionais. Foi um momento de grande importância para o cinema brasileiro, sem esquecermos que o cinema nasce no Brasil musicado por grandes compositores da música popular.

Não poderíamos deixar de mencionar o papel da música, principalmente do estilo “samba”, na reconstituição de uma identidade artística brasileira, que nos diferencia perante todo mundo. Os sambistas, que, no início do século, eram perseguidos e considerados marginais, foram os protagonistas de uma arte, hoje reconhecida mundialmente, como foi apresentada, no início deste texto, na composição de Cartola.

Além do compositor já citado podemos afirmar que o ritmo, a organização melódica e as “colcheiras” e “semi-colcheiras” que caracterizam as composições quer do estilo choro, quer do samba foram marcantes na estruturação da genuína música brasileira. Vários autores são, até hoje, influenciados pelos grandes nomes que no passado, oriundos das classes populares, trouxeram para o “asfalto” a melodia do “morro”.

Para fechar este quadro, lembramos que o carnaval do Rio de Janeiro, que tem como marca o desfile das escolas de samba, oriundas da iniciativa de Ismael Silva no início do século passado, são plenas demonstrações da importância da simbiose da cultura popular com a Arte Contemporânea no Brasil, que demonstram ao mundo a criatividade e a produção cultural  artística do povo brasileiro.

À guisa de conclusão: a opção pelo termo simbiose

Temos consciência de que, neste curto artigo, deixamos de aprofundar vários pontos que ainda merecem debate, entre eles: a permanência do preconceito e do racismo; a marginalização do produto cultural popular, principalmente da mídia; as questões relativas à dicotomia cultura popular x cultura erudita e suas características políticas; a falsa ideia de que, no Brasil, vivemos uma miscigenação perfeita, entre tantos assuntos que não abordamos.

Porém optamos pelo termo “simbiose”, e não “influência”, por termos certeza de que, apesar de todas as questões que ainda requerem debate e de tantas ações que ainda devem ser feitas no intuito de valorização dos produtos oriundos das classes sociais desfavorecidas, a cultura popular brasileira foi, e é a responsável pela constituição de uma genuína identidade artística e cultural deste país na contemporaneidade.

 

O nosso samba humilde samba

Foi de conquista em conquista

Conseguiu penetrar no municipal

Depois percorrer todo o universo... (Cartola, Tempos Idos, 1997)

Jorge Ferreira Sorriso é professor de História e ator e é um dos integrantes do movimento Serenoite que acontece em Conservatória.

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