Palavras

Edição: 361 Publicado por: Ney Fernandes em 03/10/2013 as 10:04

 
Leitura sugerida

Somos prisioneiros das palavras que dizemos, por isso temos que ter cuidado com tudo aquilo que falamos... Não temos o domínio completo do significado das palavras. Nos textos que redigimos, a concordância, às vezes, deixa a desejar. Costumamos nos perder em longos textos que nos põe a pensar: com que facilidade pessoas falam com uma grande fluência outras línguas, principalmente o inglês. Inveja? Somos sempre corrigidos quando arriscamos a falar uma palavra em inglês: “a pronúncia está errada! Não é assim!” E por aí vai. Difícil é nos corrigir no uso do português: nossa língua! É um constante desafio, para um melhor conhecimento de nossa língua. Sempre surgem palavras e expressões novas, que temos que incorporar ao nosso conhecimento, nem sempre com facilidade, de seu entendimento; palavras do momento como “sustentabilidade”, “decrescimento”. São formulações que, numa conversa, quem as ouve, fica na dele e você que fala também fica na sua, sem cair em grandes explicações.

Nos últimos anos intensificou-se a discussão a respeito “do aquecimento global” e “esgotamento” de recursos naturais. São preocupações legítimas e inquestionáveis, mas que geram distorção no significado de “sustentabilidade”, restringindo-se às questões ambientais. Tenho, para mim, que não é só isso. A “sustentabilidade” está diretamente associada aos processos que podem se manter e melhorar-se ao longo do tempo, A “insustentabilidade” comanda processos que se esgotam. E isso depende não apenas de questões ambientais... São igualmente fundamentais os aspectos sociais, econômicos, políticos e culturais. A “sustentabilidade” e a “insustentabilidade” se tornam claras quando traduzidas em situações práticas.

“Proteger o erário” é sustentável. “Roubar o erário” é insustentável (e como roubam!). “Negar o remédio a quem faz uso diário, para combate a um mal que o aflige é insustentável. Fornecer o remédio ao usuário que precisa é sustentável. Ética é sustentável, corrupção é insustentável. Ditadura e autoritarismo são insustentáveis. Democracia é sustentável. Trabalho escravo e desemprego são insustentáveis. Trabalho decente para todos é sustentável. Desigualdade é insustentável. Justiça social é sustentável. Baixos indicadores educacionais são insustentáveis. Educação de qualidade para todos é sustentável. Encher a cidade de carros é insustentável. Transporte coletivo e de bicicletas é sustentável. Solidariedade é sustentável. Individualismo é insustentável. Sociedade que maltrata crianças, idosos e deficientes não é sustentável. Sociedade que cuida de todos é sustentável”.

Dados científicos mostram que o atual modelo de desenvolvimento é insustentável e ameaça a sobrevivência inclusive da espécie humana. Provas não faltam, fala o IBGE: temos solapado a fertilidade do solo e sua capacidade de sustentar a vida. 65% da terra cultivada foram perdidos e 15% estão em processo de desertificação. Cerca de cinquenta mil espécies de plantas e animais desaparecem todos os anos e, na sua maior parte, em decorrência da atividade humana. O IBGE continua falando: “Produzimos uma sociedade planetária, escandalosa e crescentemente desigual. 1.195 bilionários valem, juntos, US$$ 4.4 trilhões...” Ou seja, quase o dobro da renda anual dos 50% dos mais pobres. O 1% de mais ricos da humanidade recebe o mesmo que os 57% dos mais pobres. Os gastos militares anuais passam de US$ 1,05 trilhões, o equivalente a 66% da renda anual dos 50% mais pobres. Por tudo do que temos participado, como testemunhas da história recente, fica a impressão de que o mundo não sabe para onde vai. É necessário recuperar a sociedade política, mas, para isso, são exigidas ideias e elas parecem ter se evaporado da Terra.

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