Misteriosas Gavetas

Edição: 361 Publicado por: José Viriato da Silva em 03/10/2013 as 10:40

 
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Egrégora... se o som já impressiona, o significado - que aqui transcrevo resumidíssimo dentro das possibilidades do espaço – bem, o significado pode impressionar muito mais: emanação energética que as coisas possuem. Há quem afirme que essa energia quando de um antigo dono, muitas vezes negativa, pode estar presente naquilo que ele possuiu. E aconselha que não se deva conservar o que foi de outrem. Bom, esta é uma opinião bem radical, mas os que a defendem o fazem procurando se basear em evidências. Particularmente gosto de viver cercado de lembranças daquelas pessoas que amei e que me amaram e, como diz uma muito inteligente Cristina Hanssen, especialista no assunto: “Não se preocupe, pois se você estiver com sua mente voltada somente para sentimentos de paz, amor, nada que não esteja nesta sintonia irá se aproximar”.

Dito isto, vamos dar um pulo ao outro lado e contar uns casos que sabemos que, sem muito forçar, indicariam para a existência de coisas por trás das coisas.

Falemos sobre escrivaninhas, utilidades estranhas cada vez menos vistas e usadas, agora que se pode escrever, ler etc. com um pequeno objeto apoiado no colo ou preso no antebraço. Há, contudo, quem as aprecie e goste de tê-las num canto, compondo a decoração ou mesmo, mais raramente, comportando um computador ou um notebook.

Uma ocorrência curiosa foi ter uma pessoa adquirido da neta de um jornalista a escrivaninha que ele usava na redação do seu jornal. Ela ainda contou: - Meu avô trazia sempre as gavetas maiores trancadas, dizia que ali ele punha grandes segredos. O móvel, com uma interessante fechadura que abria e fechava para os dois lados, isto é, atuava para duas gavetas ao mesmo tempo, foi entregue a um marceneiro, para ser restaurado. Acontece que o profissional tinha um processo curioso para tirar a ferrugem: colocou a peça dentro da lavagem, os restos de comida que juntava para um conhecido criador de suínos, e só se lembrou de retirar depois que a lata foi recolhida. Uma semana depois, perguntou e recebeu a resposta de que a fechadura não tinha aparecido no meio da lavagem. Concluindo, graças ao macete incomum do profissional, ficou o móvel antigo desfalcado de uma característica tão original. Restaram indagações: foi o porco que engoliu ou foi a lavagem que dissolveu a fechadura? Ambas as hipóteses pareceram estranhíssimas ao dono, que fez um ligeiro elo com aquilo que a vendedora tinha falado. – Bobagem – disse para si mesmo -, sumiu porque tinha que sumir.

Falamos nesse velho tipo de móvel, pois sei mais casos em que ele aparece com circunstâncias esquisitas.

Vamos a um deles: um conhecido ganhou uma escrivaninha – que pertencera a um fazendeiro escravocrata -,cheia de cupins, mas tão fascinado ficou que resolveu enfrentar a tarefa de extingui-los. Uma das gavetas estava cheia de papéis que ele não se deu o trabalho de ler nem de devolver ao doador achando que estavam muito estragados, resolveu, simplesmente, tacar fogo. Juntou tudo com as duas mãos, colocou no chão do quintal e acendeu o fósforo. Ouviu um tiro e percebeu que o braço estava sangrando. Pois não é que havia ali uma bala de revólver, que o atingiu de raspão? – Está vendo só? Eu tinha avisado que não queria esse negócio velho aqui dentro de casa – disse-lhe a mulher enquanto fazia curativo e atribuía o acidente a alguma coisa sobrenatural. Porém ele não desistiu e só se desencantou ao reparar que os danos causados pelos insetos eram irreparáveis. Então botou fogo em tudo, o móvel estragado virou um monturo de cinzas e desta vez não saiu tiro. Mas ele se arrependeu de não ter tentado ler os papéis. Que coisas neles estariam escritas? E aquela bala de revólver, que fazia ali? Como é que ela foi disparar na direção dele? Perguntas que jamais terão respostas.

A outra história ouvi recentemente. Uma senhora enviou carta ao programa do Haroldo de Andrade, contando que foi com o marido a um depósito de móveis usados à procura de uma escrivaninha art-nouveau para colocar no quarto de hóspedes. Na segunda loja onde o casal entrou, ela deixou o marido conversando com o dono e foi adentrando num cômodo pouco arrumado onde, embaixo de umas cadeiras, encontrou o móvel que procurava. Abriu uma gaveta e viu que ali estava um envelope fechado. Pegou e enfiou na bolsa. Em seguida, a compra foi feita. Ao chegar a casa, abriu o envelope e leu seu curioso conteúdo. Era uma carta dos anos 1890, enviada de Vassouras por uma mulher, dirigida a um padre e falando numa filha que teriam tido mas que o pai da missivista, o avô, registrara como filha dele. Junto seguia uma foto da menina. Não preciso dizer o quanto a leitura a espantou, e mais ainda quando o marido colocou um detetive para investigar o fato, que viera com nomes e outros dados bem claros. A conclusão foi que as pessoas existiram e – aí veio o susto! – a menina da fotografia era bisavó da nova dona do móvel! Bom, ela disse que se encontra estupefata, sem saber com segurança a que atribuir uma coincidência tão grande. Coincidência, mesmo? Nem ela, nem o radialista - e nem este ouvinte- expressamos opinião formada a respeito.

Só vou dizer, sem pensar no ridículo, que esses casos de escrivaninhas, com suas gavetas guardiãs de segredos e que acabam relacionadas com circunstâncias misteriosas, deixam no ar temores não sei bem do quê. Deve ser por fatos assim que se acredita em tanta coisa paranormal a respeito dos móveis antigos. São até ensinados métodos para os liberar de “energias negativas”, entre os quais esfregá-los com água de sal grosso, expô-los ao sol ou limpá-los com água benta. Já pensou: - E se, com esses exorcismos se estraga o verniz? Complicada opção.

Acreditando nisso tudo porque leu sobre a egrégora, e confusa quanto à solução– e lá vem outro caso! – uma pessoa conhecida deu uma escrivaninha que herdou. Disse ela: “- Achei quem quer e falou que não crê nessas coisas; que se vire. Quanto a mim, senti um alívio, porque num dia desses prendi meu dedo na gaveta e, se “macaco velho não mete a mão em cumbuca”, muito menos em gaveta misteriosa”.

E aí está: neste mundo tão cheio de novidades, às vezes aparecem umas sobre velharias.

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