A sina de ser botafoguense

Edição: 365 Publicado por: Hélio Suzano em 01/11/2013 as 15:10

 
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Para quem ainda não sabe, sou botafoguense, torcedor do Botafogo de Futebol e Regatas, nascido da fusão do Club de Regatas Botafogo (fundado em 1894) com o Botafogo Football Club (formado em 1904). Esta é a tradução técnica para minha condição de torcedor e agora procuro uma tradução lógica e racional que explique esta sina.

Na semana que passou assisti ao fracasso do Botafogo frente ao seu arquirival Flamengo na Copa do Brasil. Um sonoro 4x0. Eu estava em casa, na sala, em frente a uma TV de 42 polegadas, refestelado no sofá. Havia deixado meus afazeres na FAA, deixado o Breno dormindo após cansá-lo bastante, para assistir àquela partida. A rua estava silenciosa naquela noite. A impressão que se tinha é que o carro era maior que a vaga, se é que me entendem. Mas, vá saber, talvez fosse apenas impressão minha. A bola pipocava nos pés alvinegros e parava nos pés rubro-negros com descidas colossais de um inho qualquer sem brilho. Era um presságio...

O Maracanã vestia-se de vermelho e preto num frenesi que não combinava com a posição do Fla, bem lá no fim da tabela. Talvez fosse aquela euforia cega de quem não entendeu que o seu time é inferior e que o momento conspirava para o Botafogo. O jogo transcorria com uma ou outra jogada alvinegra de bola parada. Uma descida aqui e outra acolá e, de repente, por pouco a bola não entra no gol do Jefferson. Não fazia calor naquela noite, mas eu suava, eles suavam. A torcida pálida pouco lembrava a vibração rubro-negra, esbanjando saúde vinda das periferias do Maracanã. Em poucos minutos eu pensei: vem aí mais um fracasso.

A bola entrou, e entrou mais uma vez. Levantei do sofá calado, cerrei a janela, assegurei-me da segurança da trava porta, desliguei a TV, tomei um ou dois goles de água gelada e fui para o quarto calado. Olhei em torno, certificando que todos dormiam. Deitei-me. Lembro-me de ouvir fogos e gritos ao longe. Desliguei-me de tudo. Entendam: perder faz parte do jogo e da vida, o que não é aceitável é perder daquela forma.

Não nasci botafoguense, mas escolhi sê-lo. E foi sem aquelas justificativas de momento do clube, ou do time do pai. Foi no pior momento do Bota, vinte e um anos sem títulos, quando nada justificava aquela escolha. Aprendi a gostar do clube, da sua história, tradições, repleto de conquistas - cerca de vinte estaduais, dois brasileiros, uma Sul-Americana, Troféu Teresa Herrera, etc., além de vários recordes mantidos até hoje e de ser o time que mais cedeu jogadores para a seleção brasileira. Junto ao Santos, fez a história das três primeiras Copas do Mundo brasileiras. Um clube diferenciado, pouco afeito a alaridos e espalhafatos, tão garboso de seus heróis e de suas conquistas, quanto de suas agruras, excentricidade e superstições. É um clube esquisito mesmo, para poucos. Foi uma urgência conhecê-lo, estar presente nos assuntos que o envolviam. Um sentimento que me afastaria do conforto dos “levanta taças” e me chafurdaria na crônica de um organismo vivo, imperfeito, alimentado pela emoção, afastando-me da segurança do lugar comum.

Quanto a sua torcida, alguns podem perguntar: o time foi reflexo da torcida ou vice-versa? Diria eu que sim... E também, que não. Somos uma apaixonada torcida que aprecia o futebol arte, que é em sua maioria politicamente engajada, numerosa sim (vide Ibope), mas que não criou o hábito de comparecer e se emocionar. Talvez pela questão etária, o fato é que a torcida é o seu time e o time é a sua torcida e traz esse espírito, essa discrição acondicionada nas suas convicções.

O Botafogo tem um carisma que seduz e que justifica tudo. Então, qual o problema de ser botafoguense? Nenhum, a não ser a certeza de que não devemos nada a ninguém em matéria de títulos, prestígio e de heróis. O Botafogo foi e é grande e sua maior e mais decisiva vitória será quando a instituição Botafogo Futebol e Regatas compreender isto.

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