Da rede na varanda

Edição: 370 Publicado por: Felipe Conceição Elias Fernandes em 05/12/2013 as 09:28

 
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Da rede na varanda, me pego deitado atravessado de frente para serra. Já eram umas 18 horas e depois de um dia quente de verão e trabalho, deixo que as vértebras se alonguem em cima do pano. O sol vai arremessando suas últimas lanças de luz nos Mascates, que vão do amarelo-palha a tons de vermelho-alaranjado, que o verde dos morros parece se incendiar com o Rei se deitando no poente.

Vejo guaxos cruzando a clareira com um vigor de quem quer procriar, dançando e cantando em cima de seus ninhos de gotas que escorrem das pontas das folhas das palmeiras. Jacus dão rasantes de embaúba a outra, se embrenhando na mata onde se camuflam na sombra da noite que aí vem. Dos cambuís se escuta a percussão estralada com o compasso dos pica-paus, martelando o pau podre atrás dos bichos.

Pouco a pouco o espetáculo troca de ato. Os coadjuvantes pirilampam num cintilar verde próprio, em frequências diferentes de piscadelas. Uns piscando em frenesi enquanto outros se ascendem ininterruptamente, bailando na escuridão.

A banda está completa, pererecas distorcidas, sapos tambores e grilos violinados preenchem o som do espaço deixado pelos pássaros, e pouco a pouco as estrelas salpicam o céu esperando que a atriz principal apareça. Esta surge no meio da serra, esplêndida, absoluta e majestosa em seu véu branco. Cheia, ela aparece e termina de saciar minha alma de satisfação.

Da rede na roça, num simples fim de tarde, me apodero de um prazer que não tem preço, que está ali, que é de todos e que nos abdicamos de tê-lo quando nos trancamos em um mundo de concreto. Perdemos o prazer de curtir as coisas simples da vida, as coisas que realmente são prioridades e cada vez mais seguimos a cartilha da felicidade imposta pelo mundo material moderno.

Ter o melhor carro, a melhor casa, a melhor roupa e dar o melhor estudo para os filhos, quando na verdade se trabalha tanto para ter tudo, que não sobra tempo para passar os valores reais para os filhos. Perdemos o vínculo com a terra, com o plantar, com o criar, com o produzir, com os bichos, com as matas e no geral, com a natureza. Com isso perdemos a oportunidade de curtir essa interação.

Temos o privilégio de ter uma cidade de formação e aptidão rural. Temos tudo isso ao vivo e a cores com direito a pernilongo e muriçoca. Valorize e apodere-se.

1 comentários

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ana em 05/12/2013 às 12:25 disse:

Que verdade e quanta sabedoria .Que bom que você tão jovem conseguiu perceber o real valor da vida: viver e pra isso realmente precisa-se de poucos bens materiais. Parabéns!!!!
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