Idiossincrasia

Edição: 370 Publicado por: Gilberto Monteiro em 06/12/2013 as 16:33

 
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Dezenove de novembro, véspera de feriado, quinze horas. Caixa Econômica de Valença. Cerca de cinquenta pessoas, algumas sentadas, a maioria em pé, esperando, esperando...

Na nossa frente, quatro caixas, mas apenas duas funcionando.

A espera irrita a todos e também a mim, que seguro uma senha Preferencial.

Quarenta minutos e chega a minha vez. Estou, de maneira forçada, completamente calmo e início um diálogo com a moça do guichê:

- Quem é o gerente? Está faltando gerência?

Ela: ”Por quê?”

-Tanta gente esperando...

Ela: “A gerente não tem culpa! A culpa é lá de cima!”

-Mas duas caixas estão desativadas!

Ela: “Foram almoçar. Ou não temos o direito de almoçar?”

-É claro que sim, mas poderia existir gente treinada para estas situações.

Ela: “Não adianta reclamar aqui! É que ninguém sabe o tempo que se gasta numa troca de caixas.”

- Acredito ser o mais lógico reclamar aqui. Eu converso com você, você conversa com o gerente, o gerente, nas reuniões, conversa com outros gerentes. e assim, o assunto chega lá em cima, de maneira mais forte. Quem sabe, até, ao presidente da Caixa?

Ela, já meio ironicamente: “O serviço público tem essas idiossincrasias!”

Seguro-me bem no balcão, conto até dez, segurando melhor ainda as palavras. Vontade de dizer: Não é idiossincrasia, não. É falta de respeito, de consideração! É o defeito de não se repassar ao chefe imediato os problemas do dia a dia. É a insensibilidade de não enxergar tantas pessoas paradas, esperando, e continuar, como um robô, a contar dinheiro.

Idiossincrasia é coisa de cada pessoa e, portanto, não pode ser qualidade do serviço público que, mesmo realizado por seres humanos, deve ter normas, regras, aprendizado, boa supervisão, para que um atendimento pelo qual pagamos com impostos e taxas, e que está longe de ser bom, seja, pelo menos, razoável.

A conversa era amistosa, porém, já observada por outras pessoas. Dizer o que pensava de maneira mais veemente e deselegante iria alterar a minha voz. A adrenalina explodiria, e eram quinze horas, e fazia calor, e, nas minhas mãos, uma senha Preferencial.

Terminamos nossas tarefas e nos despedimos:

- Boa idiossincrasia para você no feriado...

Ela: “Use a Internet. O endereço da Caixa é...”

Atravessei o Jardim de Cima pensando que a idiossincrasia teria sido minha, pois, no Aurélio, está assim: “Disposição do temperamento do indivíduo, que o faz reagir, de maneira muito pessoal, à ação dos agentes externos. Maneira de ver, sentir, reagir, própria de cada pessoa”.

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