Notícias montadas no vento

Edição: 381 Publicado por: Felipe Conceição Elias Fernandes em 27/02/2014 as 10:43

 
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Salpicada no chão, a enxada começa a cantar cedo. O sol se esconde a leste, atrás das montanhas que circundam aquela região. A visão de primata ainda é falha nestas horas da alvorada e durante uns quinze minutos tudo que retina dele podia captar, se limitava a branco e cinza.

O galo já vai botando a galinhada pra acordar e uma por uma vão saindo pela portinhola do galinheiro. Juntas, elas vêm no repasse da terra recém-revirada, a procura de minhocas picadas e aranhas fujonas. Quando encontra ele abre um cupinzeiro, e a fartura proteica enriquece o banquete galináceo. Ao acabar o frenesi da comilança, o galo as recolhe as penosas para os ninhos, onde tricotam e botam o ovo de cada dia.

Macia e preta, a terra era coberta por uma camada densa de folhas e galhos, que durante algum tempo ele os picou e roçou com maestria. Seu pai disse-lhe certa vez, que esta camada que cobre o solo, protegia-o das flechas solares arremessadas sem dó nesta época do ano e do vento abrasivo do vale do rio que serpenteia o relevo. A palhada mantinha a terra úmida mesmo com 40 dias sem chuvas em pleno janeiro.

A terra carregava o fardo de alimentar não só a sua família, mas também cada animal da gleba. Os porcos se lambuzavam chupando o abacate, a manga e o jambo até o caroço e as galinhas que se fartavam de milho, amora, minhoca e aranha. Todos da terra vinham, e a ela um dia retornariam.

Cada semente que caía no chão, tinha consigo a esperança de germinar e crescer. Uma ao lado da outra, juntas e misturadas, alinhadas para facilitar a colheita ou jogadas a lanço. Na terra, mais pareciam índios reunidos cantando a pedido de chuva. Quando criança, seu pai contou-lhe que se colocar o ouvido pertinho das sementes, dava pra escutá-las orando pela água dos céus.

Todo pé de planta que brotava do chão já crescia sabendo da suas obrigações. Davam frutas, caqui, nêspera, pitanga, grumixama, jaboticaba, mexerica, limão, banana e outras mais. Davam lenha, telhado, porta, janela, mesa e até cama para descansar. Davam castanhas, cogumelos, raízes, flores, ervas, resinas e remédios pra afastar alguns males da mente e do corpo que as orações diárias não dessem conta. O quintal agroflorestal fornecia tudo que as mãos podiam plantar e colher sem ao menos limitar os anseios da mente em criar e experimentar.

Os cipós eram trançados com pedras diversas e penas de aves tropicais. A técnica tinha sido passada através de gerações, e cada vez mais aprimorada. A arte estava refinada de tal forma que estes utensílios, quando colocados próximos à janela do quarto, filtravam todos os tipos de sonhos, incluindo os daqueles que dormiam sem sonhar e dos que sonhavam sem dormir.

Deitavam na companhia do céu estrelado, sem lua e sem nuvens. O vento seco entrava galopando e assobiando pelas frestas da parede e da janela, trazendo notícias das chuvas que vinham de longe, e que outrora chegariam. Dormiam sonhando com o cheiro da terra molhada e o gosto das frutas maduras na boca.

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