Isabel, a Redemptora

Edição: 392 Publicado por: Elvio Divani em 15/05/2014 as 05:48

 
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“O sol estava pálido e a temperatura amena em São Sebastião do Rio de Janeiro.

Apressado, vovô me puxava pela mão atravessando a grande praça em direção ao imponente prédio.

Lá chegando foi saudado e saudou alguns guardas, se dirigindo a um salão esplendorosamente decorado onde estavam muitos e sóbrios senhores, todos com uma postura extremamente formal e em pequenos grupos conversavam tensos, sempre em voz baixa.

Eu era a única criança e curioso olhava tudo, mas não entendia nada.

Acostumado com a vida livre da fazenda, onde, junto com meus amiguinhos filhos dos trabalhadores, corria descalço, montava a pelo, tomava banho de rio, trepava em árvores, colhia frutas nos pés e ovos no galinheiro, bulia com os animais, tomava leite no curral, usava atiradeira, brincava de malha, taco, pipa e pique-esconde nos dias de estio e passa-anel, dominó, damas e cartas nos dias chuvosos, surrupiava doces do fogão a lenha, o que atormentava a Dona Maria, a Nena e a Cida, todas cozinheiras, vivendo mais na senzala do que em casa, estava incomodado com o laço, o colarinho e a torturante botina.

De repente um agradável aroma de jasmim invadiu o ambiente, fez-se silêncio, ouvindo-se apenas o som de passos femininos, porém firmes, e o farfalhar do tafetá de suas saias.

Vovô apertou mais ainda a minha mão quase me machucando. Por ser pequeno não conseguia ver quase nada a não ser, rapidamente e entre as pernas de alguém, a silhueta de uma mulher com ar altivo que, respeitosamente referenciada por todos, sentou-se numa escrivaninha francesa, sendo saudada com breves falas, logo começando a despachar.

Um dos homens ia lendo textos para mim ininteligíveis até chegar num que percebi causar um enorme alvoroço.

Prestando atenção, escutei o homem ler sob os olhares e ouvidos de todos os presentes um breve texto que dizia: “está abolida a escravidão no Brasil”.

Feito isso, colocou o documento sobre a mesa para que a senhora o lesse.

Nesse momento eu já havia me esgueirado entre as pernas das pessoas e estava a menos de um metro da mesa.

O silêncio era absoluto até ser quebrado pelo som áspero da pena sobre o papel, terminando no fim da assinatura.

Um ar de alívio aconteceu no salão e logo irromperam as palmas pela assinatura do ato.

Nesse momento, a senhora olhou para todos com um leve sorriso até me ver. Seus olhos brilharam e ela fez um gesto me chamando para perto.

Perguntou quem eu era, carinhosamente passou sua delicada mão pela minha cabeça e baixinho me disse: “hoje começa um novo tempo para todos nós...”

Nesse momento descobri quem era a fidalga senhora, que só conhecia por pinturas: era a Princesa Isabel, herdeira da coroa brasileira e do terceiro império!

Saindo do palácio, senti meu avô aliviado. Fomos até uma confeitaria onde ele feliz noticiou a assinatura da Lei Áurea com os presentes, tomou uns aperitivos, fumou um puro, eu me deliciei com um refresco muito açucarado e assim foi a minha experiência como testemunha da abolição e também da gota d´água para a queda da monarquia.”

A abolição causou um enorme descontentamento entre a elite da época. O problema não foi a abolição em si, mas a época em que foi promulgada, na véspera da colheita de nosso maior produto agrícola: o café. Na realidade, a abolição deveria ter acontecido seis meses antes ou na pior das hipóteses seis meses depois, para não impactar na atividade por falta de mão de obra.

Outro problema foi que, apesar de anunciada há décadas, as consequências da abolição não foram planejadas.

Ao chegar a notícia nas fazendas, a grande maioria dos escravos simplesmente largou as ferramentas e abandou o trabalho.

Há relatos de que saíram cantando e dançando pelas estradas até a exaustão.

Depois de descansar sentiram fome, mas não tinham onde e o que comer. Nessa altura eram enxotados violentamente das propriedades ou vilas vizinhas.

Além disso, também não tinham mais moradia e isso os levou a se embrenhar nas matas dos morros, construindo abrigos provisórios, passando por muitas necessidades, lamentável excrescência que perdura até os dias de hoje.

Na época da escravidão os escravos trabalhavam e em troca recebiam alimentação e moradia.

Com um salário mínimo de R$ 724 será que a situação mudou muito?

 

Em Tempo: onde está Wally ???

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