A Copa das Copas

Edição: 396 Publicado por: Samir Resende em 12/06/2014 as 07:31

 
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O grito “Não Vai Ter Copa” é um convite audacioso para a sociedade brasileira perceber a enrascada em que está se metendo, por ainda não ter amadurecido como uma nação democrática, soberana e generosa. O significado do “Não Vai Ter Copa” é muito claro. Na verdade, não vai ter Copa do jeito que aquela turma festeira imaginou, quando estourou champanhe em Paris. Bom, o champanhe deve continuar gelado e estourando, mas, na caça aos votos, alguma coisa me diz que teremos boas surpresas...

A radicalização das ruas é um fenômeno que se tornará irreversível, e a escolha que deveremos sabiamente tomar reside em: proibir, criminalizar, sufocar, prender... ou refletir sobre a possibilidade de escrevermos outra história, uma nova configuração que traga os avanços que temos o direito e o dever de buscar?

Confesso que o pensamento medíocre irreflexivo de algumas pessoas, quando não me apavora, me diverte. Uma coisa engraçada é que agora todos os problemas do Brasil surgiram com a Dilma e com o PT. Batem, xingam e compartilham as coisas, mas esquecem dos outros e continuam votando no PMDB, no PSDB, no PP, no DEM...

Muitos também dizem que “Copa não é lugar para protestos”, “protesto a gente tem que fazer nas urnas”, “porque não protestou em outra hora” etc. Quem falou que os que estão protestando agora, caso dos professores, não o fazem também nas urnas e não o fizeram em outros momentos? Só vocês que não viram, deviam estar trabalhando ou dormindo (sabe de nada, inocente!) O fato é que aqueles que sempre protestaram nas ruas e nas urnas são sempre derrotados pela voz e pelo voto conservador, daqueles que mesmos enclausurados o ano todo, acham que os “protestos” estão atrapalhando o trânsito.

Se for para falar em respeito, respeito eu tenho por quem está ali no Rio de Janeiro, tomando porrada da polícia por uma educação melhor. Esses vão continuar votando certo nas urnas e sendo derrotados pelo voto alienado e sutil que a televisão e os jornais impregnam na sociedade. Se droga mata, quem deveria estar preso como os maiores traficantes do país são as famílias que controlam a informação suja e viciada que o povo recebe.

A Escola Pública acabou, é apenas um defunto podre e fedido que está no meio da rua, como se fosse um cachorro atropelado na rodovia. E tem idiota que ainda acha que o negócio é “descer o cassete mesmo”. Se o homem das cavernas soubesse disso, ele teria dado meia volta na cadeia evolutiva.

E onde a Copa entra nisso? Entra em tudo! Cadê as ruas enfeitadas? Cadê a animação do povo que nem merenda tem pra comer? Em que pese esses fatores, arrisco outros mais estritos ao mundo do futebol, que me levam a acreditar que esta Copa não vai ser igual àquelas que passaram. A saber: 1) A seleção “brasileira” faz 90% dos seus amistosos fora do país; 2) Metade dos jogadores não tem qualquer história com algum clube do país; 3) Copa é bom para beber e zoar, coisa que a gente já faz o ano todo; 4) O “legado” da Copa se resume aos estádios “arenas”, como o de Manaus, onde praticamente não existe futebol profissional, sem falar na especulação imobiliária e no boom inflacionário que empurra o povo pra longe da festa...

O povo é inteligente! Sabe que o futebol é apenas a coisa mais importante entre as coisas menos importantes do mundo.

Kareka Giesta

Conheci pouco em vida esse brilhante artista valenciano, uma lembrança significativa que tenho foi no dia do Plebiscito do Desarmamento (2005), ele, sozinho, na esquina da Rua dos Mineiros, com uma camisa desenhada que dava o recado pela vida, e que foi derrotado naquele dia. De lá pra cá, a coisa só piorou em termos de violência urbana (fato escondido pela maquiagem das estatísticas oficiais). Um profeta barbudo, sem dúvida. Das poucas vezes que frequentei seu atelier encantado e admirei sua arte, só hoje entendi o significado daquilo tudo. Saudades de outros tempos.

Não sei se ele gostaria, mas este grande artista bem que merecia uma homenagem da cidade. Nome de rua, praça, um festival, exposições... mas, como era uma figura avançada em relação às classes política e cultural hegemônicas da cidade, vejo que não há interesse no resgate da grande visão holística e alternativa que verdadeiramente ele tinha.

É importante esse resgate que os amigos próximos fazem, pelo menos nos resta a internet como baú de lembranças da memória de Valença. Esta semana, a Prefeitura de Valença (re)inaugurou com pompa o “Monumento à Inteligência” no Jardim de Cima, pertinho da casa do Kareka. Nem precisava!

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