Volta às origens

Edição: 461 Publicado por: Elvio Divani em 17/09/2015 as 08:15

 
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Dei um pulinho até o sítio do Seu Ditão para ver com ele como ajeitar seu curral para instalar a ordenha mecânica. Apesar da simplicidade do lugar e da dificuldade que sozinho tem para mantê-lo, é tudo muito funcional, caprichado, arrumadinho, um brinco de propriedade. Caboclo enjoado, pensei.

Apeei e ele veio me receber sorrindo e falando: Seu Elves, vamos chegar! Quer uma água, um café? Se sirva da broa e do queijinho que fiz especial pro senhor. Eita hospitalidade da roça!

Sentamos na varanda, nos servimos e ele disse que tinha duas notícias boas. Primeiro é que seu Pronaf saiu, tem um gerente novo, o Júlio, Deus o abençoe, que está agilizando as coisas. Com esse recurso ele estava todo entusiasmado porque iria roçar uns pastos, reformar a capineira, o canavial e umas cercas, comprar insumos, tudo pra alimentar as vaquinhas. Depois foi chamando alguém que logo chegou e foi sendo apresentado. Seu Elves, esses são meu sobrinho Tadeu, a esposa e o filhinho que vieram ficar uns tempos porracá e dar uma mãozinha pro véio, certo Tadeu?

Meio sem jeito o rapaz me estendeu a mão e logo percebi que seu trabalho não era na roça e sim num escritório. Bem-vindo pra cá, obrigado pra lá, o rapaz e a moça voltaram pra dentro e Seu Ditão foi logo contando que o filhinho tinha ano e meio, a mulher estava grávida e ele havia perdido o emprego na cidade. Sabe como é, moço novo, começando na vida, emprego bom, confiante comprou carro, moto, TV, som, móveis, etc., tudo financiado. A empresa se apertou com a crise, demitiu funcionários, ele passou a procurar emprego, o dinheiro da rescisão foi acabando, as contas, o aluguel e os carnês continuaram a vir até que uma hora não deu pra segurar. Perderam tudo, foi despejado, um horror, ficou na rua da amargura e como não tinha alternativa e nem cara pra continuar na cidade veio pra cá pedir abrigo.

É, Seu Ditão, as coisas estão cada vez mais difíceis na cidade. Além da poluição, trânsito, violência, drogas, dengue, etc., agora também tem a realidade do desemprego. Mas e aí, como é que vai ficar?

Bem, ele vai me ajudar aqui no sítio e acho que vai se acostumar porque nasceu na roça. Meu medo é que a esposa, que hoje está estranhando tudo, não se acostume com a vida daqui, Até agora está indo tudo bem, mas receio de que isso termine porque o Sr. sabe, não tenho condução, só a mulinha, e é muito isolamento pra quem está acostumada com celular, internet, shopping, movimento, cinema, lazer., escola, postinho de saúde, creche, assistência técnica, estradas asfaltadas, facilidade de condução, etc.. e aqui não tem nada disso. Pra comprar uma caixa de fósforo tem que andar no mínimo doze quilômetros, os carros e motos desmancham nos buracos e atoleiros, é mole?

Ouvindo isso, lembrei da mão fina do rapaz, o sapatinho de couro, a saia, a blusa e as unhas bem cuidadas da moça, o menino com nariz escorrendo, que no primeiro pio de coruja, no encontro duma aranha, num trovão, na falta de luz e num atoleiro iriam fugir correndo, o que não me deu nenhuma esperança de que iriam ficar.

É, Seu Ditão, a vida da roça é de fartura de comida, frutas, água, ar, verde, silêncio, mas no resto “farta” tudo... Pelo menos agora tão asfaltando a RJ de Parapeúna a Santa Isabel do Rio Preto e isso vai melhorar muito pra nós, mas faltam as estradas de terra e condução para ir e voltar à cidade.

Quem sabe um dia chega alguém que entenda essa situação e as coisas mudam.

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