Pelo resgate de uma alimentação segura, saudável e sem agrotóxicos

Edição: 465 Publicado por: Prof. Juliano P. Gonçalves em 15/10/2015 as 09:08

 
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A paisagem rural sempre esteve associada a uma visão romântica, bucólica onde a qualidade de vida surgia do contato direto com a natureza, com seus elementos, tais como: os rios, as matas, os animais de criação, as hortas, a lavoura, tudo representava essa relação íntima e ancestral do homem com o céu e a terra.

Os pastores e agricultores liam as estrelas, estabeleciam as festas e relacionavam a tristeza sem folhas do outono com o culto à melancolia e o culto aos mortos de novembro, o renascimento e os ritos da ressurreição eram associados ao despertar da primavera, esse era um tempo místico, onde o trabalho duro era interrompido com festas pagãs e que representavam também a ruptura com a dura rotina, sobretudo, aquela enfrentada pelos escravos.

A ciência e a tecnologia alteraram substancialmente essa relação íntima que, principalmente, os pastores e agricultores tinham com a natureza. Atualmente, o que observamos é uma valorização nos espaços urbanos das atividades agrícolas, como que em um movimento de retorno a essa origem ancestral.

A agricultura urbana, a segurança alimentar, a alimentação segura, saudável, os orgânicos, agroecológicos, os alimentos com certificado de origem, de identidade, são aspectos valorizados nos grandes centros urbanos. O que pouca gente sabe, no entanto, é que a dura realidade do agricultor persiste, agravada, sobretudo, pelas consequências da revolução verde, que transformou a agricultura em grande consumidora de insumos químicos. Embora pobre em estatísticas, o país abriu, nos anos recentes, importante agenda de combate ao uso de agrotóxicos.

A presença de resíduos de agrotóxicos não está restrita aos alimentos não processados, in natura, alcança também os produtos industrializados, como biscoitos, salgadinhos, pães, cereais, massas e outros que possuem como ingredientes o trigo, o milho e a soja, esses são dados disponíveis em estudos internacionais, da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e em posicionamentos institucionais do Inca (Instituto Nacional do Câncer) que sustenta posição contra o uso de agrotóxicos relacionando-os às principais causas do câncer. Ainda segundo o Inca, o brasileiro consome em média, 7,5 litros de veneno por ano em consequência da utilização de agrotóxicos, podendo chegar, em algumas regiões produtoras, a incríveis dezesseis litros de veneno por ano.

Ao contrário da Alemanha e de muitos países da Europa, no Brasil houve a liberação para o uso de sementes transgênicas, o que contribui para o aumento no uso dos agrotóxicos, já que o cultivo dessas sementes geneticamente modificadas exige o uso de grandes quantidades desses produtos.

Os agrotóxicos são insumos químicos sintéticos usados para eliminar doenças, insetos ou plantas invasoras e o Brasil já é o maior consumidor mundial.

Importante registrar que o uso de agrotóxicos contamina toda a sorte de recursos vitais, alimentos, solo, água, leite materno, ar, etc, já que ainda utilizamos, inclusive pulverizações aéreas, que possuem significativa capacidade de dispersão das substâncias tóxicas pelo ambiente.

Nesse sentido, o Inca em pronunciamento recente, posicionou-se favorável à produção de base agroecológica em acordo com a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica. Nesse modelo, são contempladas as preocupações de se integrar a produção com a conservação da biodiversidade e dos demais recursos essenciais à vida.

A sustentabilidade ecológica, a eficiência econômica e a justiça social são os pilares que vão permitir a proteção do meio ambiente e da sociedade ao mesmo tempo em que fortalece a produção da agricultura familiar. Portanto, é preciso repensar a nossa trajetória até aqui e resgatar aquela relação primitiva que possuíamos com a natureza, é preciso que se restaure esse contato íntimo de respeito e amor com a Mãe Terra que nos acolhe, a fim de que possamos produzir alimentos saudáveis e seguros, em condições de manter a integridade da vida no planeta.

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