E agora Joussef?

Edição: 473 Publicado por: Elvio Divani em 10/12/2015 as 08:24

 
Leitura sugerida

Assisti curioso e paciente a leitura da denúncia do impeachment da Dilma, feita por dois dos mais renomados juristas brasileiros, o Miguel Reale Jr. e o Helio Bicudo, fundador do PT e que, sabe-se lá por que, pediu o seu afastamento do partido. Enojado, resolvi sair a pé pelas enlameadas estradas da roça. Alguns minutos depois chego na porteira do Seu Ditão que me viu e já foi chamando. Quase caí de costas quando vi Seu Ditão, que sempre está de chapéu, calça, correia, camisa e botas de borracha surradas e sujas de bosta de vaca, agora de boné, camiseta regata, calção e tênis! Me segurei, pra não rir da figurinha com bronzeado comercial e as perninhas, meio tortinhas, tão brancas que pareciam nunca ter visto o sol. Seu Elves, vamos caminhar juntos?

Claro parceiro, mas que novidade é essa de estar tão “muderno”?

Ah, Seu Elves, é a Flávia. Comprou essas coisas pra mim e tá controlando minha comida e minhas caminhadas. Agora torresmo, linguiça, carne gorda, branquinha e loira só nos domingos, disse resignado. Mas me conte, e essa confusão toda em Brasília?

Ah Seu Ditão, deixa isso pra lá porque a gente só pode interferir com panelaço e quando votar. Então vamos aproveitar a natureza nesta tarde gostosa. Fomos andando e admirando o Vale do Rio São Fernando, lindo de morrer com suas cachoeiras e curvas, pena que se contaminando pelo esgoto de Santa Isabel. Os morros cobertos de incontáveis tons de verde. Pobres dos que moram nas cidades e só veem tons de cinza... Continuando e falando amenidades e bobagens fomos até o Duque em frente da imponente Fazenda Santa Clara. Voltamos em direção a Parapeúna admirando o espetacular Vale do Rio Preto, agradecendo a natureza tão generosa conosco. O lindo rio correndo preguiçoso e limpo, a Mantiqueira dominando, matas e pastos com animais pastando solenes, o ar leve, puro. Mais pra frente paramos e tomamos um gole d’água puríssima numa nascente e chegamos na Glória, no Lolô. Nos recebeu feliz, com um cafezinho coado na hora e um queijinho fresco. Papo vai, papo vem, resolvi ir embora porque já estava quase noite. Seu Ditão ficou porque sabia que o tira-gosto e a prosa iam ser de primeira. Me despedi e fui caminhando no escuro pensando como as coisas tinham acontecido no Brasil. Mudança da capital para Brasília, longe do povo, renúncia do Jânio Quadros, parlamentarismo com o Jango, revolução em 64, endurecimento, repressão e Atos Institucionais, a morte de Tancredo Neves, a inflação desenfreada e os messiânicos planos econômicos do Sarney, a eleição do Collor, o confisco da poupança, o impeachment, o fusquinha do Itamar e o Plano Real, os governos do Fernando Henrique, a estabilização da moeda e da economia, a eleição do Lula, os Correios, o mensalão, a reeleição, a euforia do mercado, onde um governo de esquerda usou o crédito, oxigênio do capitalismo, para se firmar, o assistencialismo e o empreguismo, as propagandas enganosas, o enriquecimento suspeito de parentes e amigos, a “marolinha” que iniciou a crise de hoje, a eleição da Dilma, os escândalos das contribuições de campanha, a prisão do Zé Dirceu, Zé Genoíno e Delúbio, a maracutaia da Refinaria de Pasadena, a Operação Lava Jato, suas delações e prisões, as pedaladas, o impeachment, a inflação voltando, o desemprego, o país ruindo, as epidemias de cólera, dengue, shicumbuia, zika causando microcefalia, a AIDS descontrolada e porraí vai. Distraído chego no brejo da Olaria e vejo as luzes dos pescadores de rãs que coaxavam alucinadas um lamento que me dava a impressão de dizer: “ai que saudades do João Figueiredo, do Maluf e da gonorreia !”

Achando que estava enlouquecendo apertei o passo, cheguei em casa, tomei um banho fervendo, um cowboy triplo e me joguei na cama. Ao longe ouvi Rita Lee cantando baixinho “quero voltar rapidinho pra dentro da barriga da mamãe...”

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