Seu Ditão existe?

Edição: 474 Publicado por: Elvio Divani em 16/12/2015 as 09:33

 
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Vira e mexe me perguntam quem é o Seu Ditão ou se sou eu mesmo. Me divertindo sempre, desconverso mantendo um certo suspense. Até pouco tempo atrás Seu Ditão, já avançado na idade, pouco estudo, pele enrugada e curtida pelo sol, mãos calejadas, dentadura incomodando, levantava diariamente antes do amanhecer para tirar leite, tratar das galinhas e dos porcos, depois recolher os ovos, as verduras, os queijinhos e os doces caseiros para vender na feira. Arreava a sua mulinha, vestia a sua melhor roupa, limpinha, mas puída, e percorria os seis quilômetros de distância de sua propriedade até o ponto, tomando cuidado de não “apertar” demais o seu velho animal, sentindo saudades do seu Fusquinha 67, guardado no rancho e destruído pelas estradas precárias, e ia esperar pela única condução do dia, um ônibus mambembe que passa às 6 horas da manhã e retorna às 14h30min, chacoalhando pelas estradas de terra com poeira e buracos no inverno e desbarrancamentos, lama e atoleiros no verão. Chegava no mercado e conseguia vender a sua pequena produção até pouco antes das 11 horas. Depois saía pelas bancas para comprar algumas coisas que não produzia, ou que estão fora de época, para sua casa. Comprava farinha de mandioca e alguns temperos. Continuava a sua peregrinação até o supermercado e comprava sal, macarrão, biscoitos, comia apressado um salgado, tomava um suco e saía correndo para a rodoviária pegar a sua condução de volta, sabendo que ainda havia muito trabalho pela frente. Hoje o panorama é outro pois, empurrados pelo desemprego, vieram para a roça seu sobrinho Tadeu, a Flávia e as crianças. Esse fato foi um divisor de águas no sítio e na vida de todos. Com a chegada deles o sítio se modificou e todos começaram a prosperar. A velha mulinha hoje pasta tranquila e aposentada. O Fusquinha 67 virou uma moto que virou um Fiat 96. A dentadura incomodando foi trocada por uma nova que o Dr. Otto fez. As roupas puídas viraram panos na oficina. A mínima tecnologia aplicada com a ordenha mecânica, o tanque de expansão, as anotações controladoras, a alimentação garantida pelos piquetes rotacionados, a silagem de napier e cana, o milho colhido, fizeram que a produção aumentasse muito junto com a qualidade, o que melhorou o preço recebido pelo leite. Depois a coragem de fazer um empréstimo e melhorar o sítio e o principal, o sangue novo do Tadeu e da Flávia, fazendo que todos melhorassem suas vidas. Mas ainda não contei quem é Seu Ditão ou se ele existe. Ele existe sim só que com esse pseudônimo que poderia ser João, Tião, Paulão, Pedro, Zé Honorinho, Vitor, Lulão, não aí já é demais, mas escolhi Ditão por vir de Benedito, que quer dizer bendito. Bendito por ter amigos e ser respeitado; bendito por ser generoso e hospitaleiro; bendito por ser sério, honesto e coerente; bendito por ser humilde, mas sábio; bendito por não ter inveja; bendito por ser trabalhador; bendito por viver na tranquilidade e beleza da roça; bendito por não ter que conviver com trânsito, barulho, stress e dengue; bendito porque o asfalto finalmente está chegando; bendito por entender os animais e ter os cães sempre a seu lado; bendito por amar e respeitar a natureza; bendito por ser feliz em produzir comida para as pessoas.

 

Em Tempo 1: Infelizmente Seu Ditão ainda não tem telefone, nem internet e tem que aguentar as “maledetas” estradas rurais, cada vez piores.

Em Tempo 2: Correios dando prejuízo? Já, já “Operação Vale o Escrito”

1 comentários

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Lina Mauriz em 01/03/2016 às 14:38 disse:

Adoro, os teus textos! Seu Ditão existe sim, em cada coração.
responder O comentário não representa a opinião do jornal! A responsabilidade é do autor da mensagem!
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