O Natal e a irmã do Seu Ditão

Edição: 476 Publicado por: Elvio Divani em 07/01/2016 as 09:52

 
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- E aê, Seu Ditão, como foi de Natal?

- Ah Seu Elves, tava bom pra rai, muitas lembranças, risos e lágrimas. Minha irmã médica que mora em São Paulo e não tem filhos, enviuvou há dois anos e é madrinha do Tadeu, veio passar uns dias na roça. Fui buscá-la em Cardoso pra não arriscar estragar seu carro na estrada municipal. Cumprimentos meio frios, quase nenhuma palavra no caminho naquele entardecer quente e abafado, mas lindo pelo visual do vale de verdes indescritíveis e o rio serpenteando tranquilo. Chegamos em casa de noitinha e de longe já vimos as luzinhas que piscavam enfeitando o jardim. Notei que a mana até mudou a posição no banco do carro e seu rosto se iluminou num sorriso quando viu a casa toda pintadinha, florida, e o Tadeu, a Flávia e as crianças esperando por nós na varanda. Meio sem jeito percebi que duas lágrimas rolavam pelo seu rosto. Abençoou o afilhado, beijou Flávia e as crianças e foi entrando na casa antiga devagar e olhando de um lado a outro como se estivesse se lembrando de cenas passadas. Levamos as coisas dela pro quarto que era das meninas. À noite, na ceia farta, começamos a relembrar o passado naquela casa. Dos dez irmãos que a enchiam de alegria, do pai severo mas justo, da mãe conciliadora, de como quando um ficava doente todos ficavam e assim foi com catapora, sarampo, caxumba, gripe, mas o mais divertido era com conjuntivite que mamãe embebia chumaços de algodão com água boricada e colocava nos nossos olhos, fazendo com que a gente andasse de mãos dadas, do mais velho até o caçula, todos ceguinhos. De como não havia riqueza mas havia fartura. Das idas ao curral com a canequinha com café bem adoçado pra pegar o leite tirado na hora das tetas das vacas de leite mais gordo, tomando cuidado com o boi raçado que pegava. Da correria pra pegar o frango do almoço, da colheita do feijão que era batido com uma vara de bambu, da quebração do milho, as frutas comidas no pé, de tratar dos porcos e galinhas, buscar lenha, de andar sempre descalço e a coceira do bicho-de-pé. Os banhos de rio nas tardes de calor, as pescarias de lambari e cará quando a água tava barrenta, a bateção de peneira pra pegar traíra, caçar vagalumes e cigarras. As roupas que passavam de irmão para irmão. Os brinquedos que vovô fazia debaixo da mangueira, esculpindo carrinhos, trenzinhos, bonecos, as bolas de meia e a boneca de pano com olhos de botões, as bolas de gude, os piões, a corda de pular, a atiradeira, o balanço de pneu, amarelinha, pega-pega, esconde-esconde e porraí vai. As gatas Michi e Micha e o gato Xuxu, os cachorros Chica, Cissa, Bebê, Pietra, Pimpo, Mancha, Zé. A missa a cada mês quando todos iam bem vestidinhos, mas torturados pelos sapatos. Não havia eletricidade, somente lamparinas e uma engenhoca que papai fez com um dínamo de bicicleta tocado a água e que dava prumas três ou quatro lâmpadas. O radinho Spika que mais chiava do que falava e a eletrola a corda, tocando Tonico e Tinoco. As caronas no caminhão do leite. O Camaleão, cavalo Crioulo que levava a gente a pelo direto pra escola e de volta pra casa sem sair do caminho nem por uma cenoura. De como o papai conseguiu formar todos em doutores menos eu, que não gostava de estudar. A tristeza de quando um a um foram indo embora para estudar e quase nunca mais voltaram, apesar de herdeiros da terra. A morte de papai que encontramos caído no curral vitimado por um infarto fulminante, da mamãe partindo aos 89 anos, mas que nunca deixou de cuidar da casa e nem de cozinhar e fazer aquele doce de abóbora caramelizado cujo segredo era a cal virgem. Seu Elves, no dia seguinte, saí pro curral com o dia amanhecendo e encontrei a mana que já tinha ido buscar as vacas para a ordenha feliz da vida. Ditinho, ela falou, quero te agradecer por você ter cuidado tão bem do lugar que nascemos e crescemos. Pensei baixinho, que bom que ela não veio no ano passado quando tava tudo tão feio, tão acabado. Respondi que devíamos tudo ao Tadeu e à Flávia, que trouxeram sangue novo. Percebi, disse ela, mas não aconteceria se você não tivesse deixado. Vou voltar pra cidade e contar pros irmãos tudo que vi por aqui e tenho certeza de que vão ficar muito felizes e agradecidos. Quem sabe nos reunimos todos aqui na Páscoa. Nossa mana, isso seria bom prarrai!

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