“O mais firme cimento da sociedade”

Edição: 492 Publicado por: Hélio Suzano Jr em 29/04/2016 as 08:41

 
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“A hora de vésperas, houvemos vista de terra! A saber, primeiro um grande monte, muito alto e redondo; outras serras mais baixas ao sul; e terra chão com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O MONTE PASCOAL e à terra A TERRA DE SANTA CRUZ”.

“Esta terra parece-me que será tamanha que haverá nela bem vinte um a vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar e em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas e outras brancas. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender os olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos – terras que nos parecia muito extensas”.

“Andamos por aí vendo o ribeiro o qual é de muitas águas e muito boa. Ali descansamos ao longo dele, entre esse arvoredo que é tanto e tamanho e tão vasto e de tanta qualidade de folhagem que não se pode calcular. Há lá muitas palmeiras... e muito bons palmitos, segundo os arvoredos são muitos, e grandes e de infinitas espécies, não dúvida que por esse sertão haja muitas aves”.

“E na praia avistamos muitos homens, pardos, um tanto envermelhados, bem feitos. Andavam nus. Eles não lavram nem criam. Nem há aqui boi, vaca, cabra, ovelha ou galinha. E não comem senão deste inhame, de que há muito, e dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam.

À noite seguinte ventou tanto Sudeste com chuveiros..., contudo a terra em si é de muitos bons ares frescos e temperados. Águas são muitas, infinitas”.

(Trecho da Carta de Pero Vaz Caminha)

Este trecho da Carta de Pero Vaz Caminha traduz com exatidão meu sentimento quanto ao nosso País e os motivos que nos trouxeram até aqui. As questões agrárias, a valorização do homem do campo, a sua influência na economia e na cultura, a forma como a grande mídia e os gestores tratam o homem do campo estão diretamente relacionados com a deterioração da qualidade de vida do povo brasileiro e de suas cidades. Fizemos, no decorrer do último século um caminho inverso, abandonando o campo e suas tradições, desvalorizando sua importância e riquezas, superdimensionado as cidades, elevando a “urbanidade” como sendo um valor superior.

Esta atitude reflete a nossa mediocridade de quem não se conhece e não reconhece sua força. Somos o celeiro do mundo, o pulmão do mundo, a última fronteira agrícola do planeta e ainda assim, de certa forma, continuamos a relegar uma importância secundária ao pequeno produtor rural. Uma montadora de carros com isenção de impostos, com atrativos fiscais, com toda espécie de incentivos gera de riquezas totais (capital, empregos, economia, riquezas) um décimo do que as pequenas e médias propriedades rurais produzem em matéria de riquezas, empregos, qualidade de vida, sustentabilidade, prosperidade, equilíbrio social e segurança econômica.

A luta pela conquista da posse da terra, como se percebe do trecho transcrito da carta acima, vem desde os primórdios, tão velha quanto o sol. Basta observar que o “Tratado de Tordesilhas” se constitui num ponto de atrito entre várias nações, tornando-se histórico o protesto de Francisco I, da França, junto aos Embaixadores ibéricos: “Gostaria que me mostrassem a cláusula do testamento de Adão que manda dividir o novo mundo entre os meus irmãos da Espanha e Portugal, excluindo-me da sucessão”.

Como centro prioritário de toda a cadeia evolutiva da vida humana e também motivo de toda legiferação do homem, a terra é o cadinho onde forjam a prosperidade, a ciência, a arte, a harmonia, a paz social, enfim, a grandeza de uma Nação. A terra é fonte geradora de todas as riquezas, pelo seu trabalho manual ou mecanizado, procura expandir suas posses objetivando, de maneira maquiavélica, ampliar sua influência em seu meio ambiente como senhor de muitas terras, capaz de assegurar-lhe o poder, a liderança. No cotidiano muitas vezes a prática de atos esbulhatórios são comuns, marcados, por vezes, com sangue dos que se opõem a sua ganância pela terra que, em última instancia, se constitui “uma endemia do homem”. Ferindo frontalmente o que dispõe a Carta Magna Brasileira, quando protege a função social da propriedade.

Não é à-toa que a história revela que toda Revolução Industrial foi precedida de revolução agrícola, porque é deste setor, chamado primário, que emergem os fundamentos da formação de capitais, donde se originam processos de ampliação de setores de maior produtividade, ensejando o processo de desenvolvimento de um país.

Quando o campo deixa de ser tomado na devida valia como atualmente, há o êxodo para os centros urbanos, ocasionando sérios problemas sociais, a violência, a corrupção, a desordem, a deterioração dos valores que solidificaram esta Pátria e que garantem nossa identidade. Somos aqui em Valença exemplo deste processo de declínio social e político com estagnação econômica das fontes motrizes do desenvolvimento local.

Segundo Giandomenico Romagnosi, agrarista italiano que editou em Florença em 1832 o “Prinicipi Pondamentali de Diritto Administrativo”- “a natureza, com a força imperiosa da necessidade, arrasta os homens para a agricultura, fixa-os à terra, surge daí o mais firme cimento da sociedade, o mais enérgico motor civilização e o mais poderoso moderador daquelas perpétuas guerras intestinas e daquelas devastadoras invasões de povos que abolem as cidades e os reinos e submetem as populações a uma vida turbulenta e feroz”.

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