A perda da capacidade de ouvir

Edição: 528 Publicado por: Fabrício Itaboraí em 13/01/2017 as 08:09

 
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Em tempos modernos, onde e quando as redes sociais tornaram-se a forma mais eficiente de comunicação e expressão de nossas ideias, percebo que todos nós queremos falar, mas ninguém quer ouvir.

Essa incapacidade de ouvir tem piorado e exacerbado nosso individualismo, aumentando nossa solidão e nosso desejo de sempre estar certo e ser o centro das atenções.

Não nos interessa o que o outro acha ou pensa sobre o que quer que seja. Em especial quando difere do que defendemos e às vezes nem mesmo sabemos porque defendemos aquela posição, e, se de fato acreditamos ou se somos levados a acreditar, pois só conseguimos ouvir a nossa própria voz, e aqueles que que replicam o mesmo discurso.

Tornamo-nos, uma massa burra que grita numa espécie de vale do eco. Aceitamos apenas o som que ouvimos de volta, pois na medida em que nos preocupamos em tão somente falar, deixamos de escutar uns aos outros encerrando de vez a possibilidade de qualquer diálogo. Extinguida a chance de entendimento e socialização, características que a meu ver são inerentes ao ser-humano.

De certa forma, ao nos tornarmos apenas seres falantes e não ouvintes, perdemos nossa condição humana e capacidade de nos colocar no lugar do outro. Parece-me que esses tempos modernos estão por decretar a morte da empatia e sem ela falece junto nossa humanidade.

Não sei o que virá pela frente, mas certamente o individualismo tem retirado toda a nossa capacidade de olhar as situações em perspectiva, uma vez que não vivemos sozinhos, mas antes, em comunidade, de tal maneira que passamos a coordenar o mundo a partir das nossas verdades absolutas, vontades e desejos. E, especialmente nossas frustrações, pois, nossas análises, nossas compreensões. Ou seja, tudo passa a girar em torno de nós mesmos, posto que acreditamos ser especiais e donos da verdade, parecemos iluminados em forma de “cidadãos de bem” e que, portanto, nada que venha do olhar do outro deve ser considerado se diferente do que gritamos.

Todo esse individualismo egocêntrico apenas faz com que nos afastemos mais ainda, formando verdadeiras ilhas afetivas, isoladas em nossos mundos. Essa cegueira cria uma resistência perante tudo aquilo que é diferente, por todas as coisas que não se coadunam com o que pensamos, como se fôssemos incapazes de dialogar, de imergir no mundo de idiossincrasias que forma o outro.

O debate esquerda x direita, capitalismo x comunismo, cidadãos de bem e degenerados retira de ambos a condição que nos une. Humanidade! Às vezes chego a pensar se realmente ainda somos uma única espécie, ou se já sofremos tamanha mutação que nos transformou em “coisas” diferentes.

Essa falta de diálogo que nos leva à solidão de nossas vozes nos faz tristes, solitários, e rancorosos. Presos em nossos muros de indiferença, mergulhados em depressões e afogados pela ansiedade.

Estamos doentes porque preferimos cegar e nos isolar dentro da nossa zona de conforto a enxergar que existem outras vidas além das nossas, outras verdades, pessoas possuem vivências e sonhos diferentes, preferências políticas distintas, sexualidades diferentes, mas todos somos, acima de qualquer coisa, humanos e deveríamos buscar essa nossa condição acima de tudo para entendermos o outro lado e sair dessa ilha que nossas verdades construiu.No entanto, me parece que rotular o outro, ofender e depreciar sua condição é mais importante do que tentar o diálogo. Preferimos rótulos, conceitos e preconceitos. É fácil rotular o outro de “Militontos” e “Bolsominions”, difícil é entender o porquê daquele posicionamento, ouvir o próximo e tentar o debate com respeito.

Preferimos nos fechar, ficar doentes e morrer desnutridos de amor, a abrir mão de um egoísmo mesquinho que nos transforma em escravos da nossa própria condição miserável. O que vale é ter razão, e estar certo o tempo todo. O outro que se exploda, afinal ele é o diferente, a razão do mundo estar essa desgraça.

Os “camisas” amarelas acabaram com nosso país, malditos “paneleiros”, antes vivíamos um Brasil igual, maravilhoso e sem pobreza. Não, quem acabou com esse país foram esses petistas comunistas miseráveis, roubaram tudo e ainda por cima estão destruindo os valores das famílias de bem.

Será que é esse mesmo o caminho? Qual dos dois lados tem razão? Estava tudo uma maravilha antes do Temer? E, agora, melhorou? Lembrando Bertolt Brecht, tempos difíceis que precisamos defender o óbvio.

Não seria óbvio que num país que a Constituição Federal não tolera pena de morte comemorar um massacre dentro de um presídio com dezenas de mortes mostra o quanto estamos doentes? Seria se esse povo não estivesse tão carente e descrente nas instituições carcomidas pela corrupção que impregna o país desde o cidadão que recebe troco errado da caixa do supermercado e se cala, mesmo sabendo que seu salário miserável será descontado até o político que rouba da saúde não se importando com quem vai morrer e depois ainda protesta pelo bandido bom é bandido morto.

Podemos ter um mundo melhor, mas antes precisamos reaprender nossa capacidade de diálogo e acima de tudo recuperar o sentimento de empatia, pois na medida em que deixamos de escutar o outro, as nossas vozes já não significam nada, além da demonstração da nossa cegueira, pois como disse Gandhi: “Olho por olho e acabaremos todos cegos”.

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