Acusados

Edição: 530 Publicado por: Redação em 26/01/2017 as 09:47

 
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Nós da imprensa, invariavelmente, somos acusados de só nos interessarmos em coisas ruins. Em geral, formulam esta sentença políticos preocupados com sua imagem e membros do Judiciário apreensivos com a pressão que matérias deste tipo incidem sobre suas produtividades. Mas, há também, pessoas comuns que, vez por outra, reclamam da atividade como se fôssemos, apenas urubus à espreita de uma boa carniça. Desconsideram de imediato que a atividade se constrói de situações anômalas, inéditas e relevantes, pois somente estas, e não as comuns, oficiais e enaltecedoras de atos simplórios, despertam interesse do cidadão, democraticamente bem formado e por tal interessado e em estar bem informado.

Há, é claro, imprensa que invista no quanto pior melhor, mas há, também, as que ofereçam os fatos por eles mesmos. E se parece que só coisas ruins são privilegiadas, é porque, na prática, estas se sobressaem em determinados momentos num país onde se avolumam crises de competência, de caráter e de honestidade. Que culpa temos nós, se tudo se oferece a nosso ofício tão ruim, tão podre, tão desconstruído.

Engana-se quem acredita que só de notícias ruins vive o jornalismo. No Brasil, talvez, diante do verdadeiro caos institucional e crise de formação, esta nuance se instalou, diante dos fatos que diariamente se revelam. Roubalheira sem fim. Muita roubalheira. Roubalheira de empreiteira, de político, de juiz, de banqueiro. Assaltos nas ruas, muitos seguidos de morte. Arrastão nas praias e nas estradas. Favelas tomadas por traficantes, milícias e bandos animalizados. Presídios sem ordem, comandados de dentro para fora. População acuada, se matando nas estradas, saqueando cargas. Políticos e empresas roubando e roubando muito da pobre viúva.

Nos municípios, ainda mediamente seguros, o tráfico corre solto: drogas e influências. A política virou balcão de negócios e o poder público, sempre endividado, há muito deixou de ser capaz de atender com eficiência e eficácia as demandas mais simplórias de sua população.

Crises, crimes, escândalos, acidentes que poderiam ser evitados, serviços públicos de péssima qualidade, pequenas e grandes corrupções, patrimônio público em lamentável estado, saneamento básico sofrível e sociedade apática procurando quem queira sua procuração para agir.

Portanto, não são os jornais que privilegiam notícias ruins. Queríamos nós, estarmos sempre recheados de notícias alvissareiras, mas que, diante deste mar de caos, cada vez mais se escasseiam ou se diluem diante da relevância dos acontecimentos ruins que cada vez mais, reparem, se superam, seja na quantidade do rombo ou na crueldade do crime.

Continuamos esperançosos e não mais tão otimistas, que tudo melhore e que possamos nos pautar por atos e fatos positivos e engrandecedores.

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