Precisamos falar de Maria Eduarda e Fabiana Aparecida

Edição: 540 Publicado por: Fabrício Itaboraí em 05/04/2017 as 14:00

 
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Maria Eduarda, de 13 anos, foi atingida por tiros durante um confronto entre policiais e criminosos e morreu no pátio da escola. E, diante dessa tragédia o debate que ganha contornos nas mídias sociais é se o disparo saiu ou não da arma da Polícia.

Confesso que me dói o estômago ler os comentários. A grita geral é de quem é bandido que atira para matar policial tem que morrer, mas quem morreu nesse caso foi Maria Eduarda, 13 anos, atingida no pátio da escola.

Pais e mães não conseguiram se colocar no lugar de Rosilene, 52 anos, mãe de Duda morta enquanto fazia educação física. Teve gente se é que posso chamar de gente, que afirmou que a família acusa a polícia para receber indenização do estado. Como conseguem olhar para os filhos e não sentir um arrepio na alma? Aliás, mataram essa menina duas vezes: o corpo físico e a moral. Não canso de ver fotos e relatos falsos de que seria ligada ao tráfico.

Para mim pouco importa se o tiro partiu da PM ou de um traficante que possivelmente é pouco mais velho que “Duda” como era chamada pelos amigos e familiares. Essa guerra matou gente demais. Dudas, Fabianas (a Policial Militar de Valença, assassinada em serviço numa UPP) e muitos outros irão morrer. Aliás, quantos mais? Para entendemos que estamos perdendo nossos jovens sejam eles mortos nos pátios das escolas, executados depois de rendidos ou esquecidos no cárcere, ou ainda fardados?

Quando vamos entender que na favela não se produz AK-47, a arma que suspostamente fez o disparo que ceifou a vida de Duda? A menina que queria ser jogadora de basquete.

Quando vamos perceber que essa guerra que parece restrita aos morros cariocas está mais próxima de nós do que imaginamos?

Aqui em Valença perdemos dezenas de jovens por mês, presos em busca de “dinheiro fácil”. Esse encarceramento em massa só fortalece organizações criminosas que cada vez mais ganham espaço no Rio, Baixada, Valença.

A guerra não ficará restrita ao Morro do Alemão, Acari ou Santa Rosa. Fará ainda mais vítimas aqui no “asfalto”, aliás, disso não tenho dúvidas. O CEP determina o valor da vida.

O médico Jaime Gold, de 57 anos, esfaqueado na Lagoa, cartão-postal do Rio gerou comoção. A morte hedionda de João Hélio arrastado vivo por um carro no momento do roubo também causou forte comoção. E, por que com Duda e assassinada no pátio da escola ou Cláudia arrastada por uma patrulha da polícia militar após ser jogada na caçamba como “saco de batatas” não comovem? De onde vem tanta falta de empatia com as vítimas de comunidades carentes?

Queridos e queridas, no morro não tem fábrica de armas, muito menos AK-47. Não tem plantação de maconha e muito menos laboratórios para refinar cocaína. Logo, por que a guerra tem que ser feita em horário em que crianças brincam nas ruas com esgoto a céu aberto, em horário escolar?

A verdade é que perdemos a empatia, capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela. 

Não conseguimos sentir a dor da Dona Rosilane, nem da mãe que perde o filho para o tráfico. Achamos normal e aplaudimos o mau policial ser juiz e carrasco e executar jovens negros rendidos desarmados.

Os ventos do “desamor” que sopram sobre as comunidades carentes em breve também ventarão sobre nós, e talvez nesse dia e da pior forma possível consigamos sentir compaixão pelas vítimas dessa guerra altamente lucrativa que leva embora marginalizados e “cidadãos de bem”.

Não se enganem: vivemos uma epidemia de desamor e estamos longe de encontrar a vacina, pois alimentamos cada vez mais a doença. Ou paramos agora, ou sentiremos de forma ainda mais dura os sintomas da violência que banaliza a vida e mede seu valor pelo CEP. Precisamos urgentemente enxergar a dor do próximo, aliás, um cabeludo que andou na Terra há milênios atrás dizia algo parecido com isso. Ama o próximo como a ti mesmo. Fica aí, a dica desse homem sábio como saída dessa encruzilhada em que nos encontramos.

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