Arrependimento

Edição: 541 Publicado por: Aloisio Melo Morais em 13/04/2017 as 13:50

 
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O Rosevaldo Rubão é desses caras rudes. Pode-se mesmo dizer, sem medo de errar: é um grosseirão. É um homem afeito à lida pesada de dirigir caminhão pelo interior da roça. Carrega e descarrega sacos de ração e latas de leite.

Trata todos por onde passa pela linha de carreteiro com gritos e muita falta de educação. Quem o conhece de perto tem medo. Os que lidam com ele pouco conversam. Não sabem a hora em que o homem vai reagir e nem de que jeito!

Por isso, é preferível evitar discutir com ele. Em casa, não menos diferente o Rubão trata a família. Com os filhos e a mulher só aos gritos. Dona Zica é uma santa, coitada. Reza muito todos os dias, além de fazer a comida diária, lavar e ainda trabalhar fora. Tem pavor do marido.

No seu trabalho de copeira em serviço público, onde já está quase a aposentar, é muito querida. Suas colegas têm o maior carinho por ela. Sabem o quanto sofre pelos maus-tratos do esposo. Um de seus traços da personalidade é ser simplória.

As mulheres do serviço onde Dona Zica trabalha, e são em grande maioria, gostam de fofocar e compartilhar com ela. A última aconteceu no horário do recreio, quando iam para a copa lanchar. O assunto do dia era uma revistinha pornô que apareceu na roda.

- Olha o tamanho... Olha a cara dela..., o que ele faz..., ele é lindo!... E ela, que mulher sem vergonha! Eram assim uns comentários delas em relação às fotos coloridas da revista. Puro sexo explícito à exposição e para o deleite da mulherada.

Enquanto elas se fartavam de curiosidade, Dona Zica estava ao fogão preparando o lanche. A tudo ouvia, quieta e curiosa pra ver a revista. Esperou acabar o horário do recreio. Quando todas já saíam da copa perguntou à dona da revista:

- Você pode me emprestar pra eu ler em casa?

- Sim, Dona Zica, mas tenha cuidado, esconde pra ninguém ver.

- Claro, minha filha que eu escondo – respondeu.

Naquele mesmo dia, Dona Zica chegou a casa e escondeu a revista atrás de uma gaveta do guarda-roupa. Naquele dia não teve coragem de ver. Estava curiosa e não podia arriscar. Afinal, o marido estava por perto e os filhos também.

Esperou o dia seguinte, quando pela manhã, o marido sairia cedo para buscar leite e as crianças iriam para a escola. Dito e feito, as crianças e o marido fora de casa e Dona Zica foi para o seu quarto, trancou a porta e fechou as janelas.

Tirou a gaveta e pegou a revista, atrás, escondida e embrulhada numa sacolinha de plástico. Refestelou-se na cama e abriu nas primeiras páginas. Mal começou a folhear e aconteceu o susto:

- Muié, abre a porta. O quê ocê tá fazendo aí? – gritou o Rubão. Dona Zica deu um pulo da cama. Nervosa, sem saber o que fazer, mal deu tempo de responder: - Tô pelada, trocando de roupa.

Ela enfiou a revista por debaixo do colchão e abriu a porta:

- Ué, muié, ocê num disse que tava pelada?

- Pois é, eu troquei depressa pra você não me vê nua – respondeu.

Mas, Rubão, que naquele dia não fora trabalhar porque o caminhão enguiçara e voltara pra casa inesperadamente, ficou cheio de amor pra dar: - Vamos tira a roupa, eu quero ver – mandou.

Pra encurtar o acontecido. Na cama, Dona Zica, sem desejo soava nervosa, preocupada com a revistinha debaixo do colchão e o que o marido ia achar dela se descobrisse:

- Por que eu fui pedir essa revistinha emprestada? – pensava, arrependida.

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