Semana Santa

Edição: 542 Publicado por: Aloisio Melo Morais em 19/04/2017 as 15:44

 
Leitura sugerida

Dos acontecimentos das semanas santas em Minas Gerais as procissões são uns dos mais relevantes. O povo gosta e é pelo grande número de fiéis nas procissões que se mede a sua religiosidade.

As pessoas se deslocam dos mais variados lugares para acompanhar as procissões, entre elas as de Nossa Senhora e a do Enterro de Cristo. São essas as que mais acumulam multidões. Mas, existem outras.

E muitas histórias se contam em torno das procissões. É por exemplo uma delas, que vem de tempos antigos e que perdura de região para região de Minas, há décadas de anos.

Ao longo do tempo essa história foi aumentada ou diminuída ao sabor dos contos, mas ainda permanece viva. Seu mistério, existido ou não, se deve muito à licença poética permitida pela literatura.

O tempo tem cuidado para não apagar essa história que aconteceu em Minas. Aliás, mais precisamente numa cidadezinha mineira à beira de um rio limítrofe com outra não menos pequena pólis, do Estado do Rio.

Certo Elisiário, caboclo cheio de mandingas vivia mais pelas madrugadas que debaixo de sol em dias de suor e sede. Era homem que tomava conta da noite e umas cachaças. No mais vivia à custa da mulher.

Quem por ventura passasse a cavalo pelas ruas da vila certamente daria de encontro com Elisiário. Fosse noite fria ou quente e o homem é que sabia se tropeiro chegou ou saiu, e qual rumo tomou.

Certa noite de uma Semana Santa, madrugada de dar medo, chuvinha fina, Elisiário ouviu vozes. Olhou ao redor e percebeu que os cânticos lentos e baixos, em tons de resmungos, vinham da igreja.

- Não é possível que o povo ainda rezasse até a essa hora? – fez a pergunta a si mesmo, depois de tomar mais um gole. Desconfiado caminhou em sentido à igreja, cuja porta principal estava aberta.

Subiu a pequena escada de sete degraus de pedras e entrou na igreja. Estava às escuras. Apenas existiam penumbras de pessoas com véus na cabeça, assentadas e com velas acesas. Cada uma carregava uma flor.

- E ainda por cima estão cantando em latim – murmurou surpreso. Olhou para o alto e percebeu no coro gente tocando órgão e um pequeno coral de vozes entoava gregoriano: “...benedicta tu in mulieribus....”.

De repente parou o canto e, de uma só vez todos se levantaram. Do altar surgiram três pessoas altas com tochas acesas nas mãos e um deles com uma cruz. Eles começaram uma procissão que saiu da igreja.

Foi o bastante para Elisiário perceber que eram esqueletos de mortos. Saiu em disparada. Chegou a casa ofegante. Encontrou a sua mulher na janela. Como estavam às turras nada disse para ela.

Ao dormir, novamente ouviu o cântico fúnebre, cada vez mais próximo. Era a procissão que passava defronte à sua casa. Entrou para debaixo da coberta arrepiado de medo.

No café da manhã, Elisiário, de ressaca contou para a esposa o que tinha acontecido na véspera. A mulher: - Achei mesmo algo muito estranho aquela procissão pela madrugada.

Como não acreditava no marido que vivia bêbado, ela contou que a procissão parou para uma pessoa vir até à janela e lhe entregar uma flor:

- Vou trazer a margarida que a moça me deu para você ver – disse, voltando em seguida e dizendo assustada para Elisiário: - No lugar da flor eu encontrei um osso de defunto – e desmaiou.

No dia seguinte a mulher foi mais uma alma na procissão.

0 comentários

avatar
Escreva seu comentário...
Seu nome...
Seu email...