Medo de santo

Edição: 545 Publicado por: Aloisio Melo Morais em 11/05/2017 as 08:17

 
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No sertão de Rio Preto existia a Fazenda Barra de Santana: a maior no meio do vale do rio Sant’Ana. Ao redor matas escuras que dão valor ao chão. No meio dos morros muitas vacas e bois pastando. É um mundo além do binóculo. Mas, longe, muito longe, a léguas de mula ficam os Gerais.

É lá que morava o Joaquinzão. Nos Gerais que beira o rio Preto, onde é mais morros que vargens. Chega-se por dentro do vale a Barreado, ao Porto ou a Rio das Flores. Os nomes são bonitos, que nem agreste, veredas ou o buriti da esteirinha da Das Dores.

Joaquinzão era um vaqueiro com chapéu de palha. Sua sina era pegar boi a laço. Cada Joaquinzão que existe conta acontecimentos e valentias a seu modo. O nosso não era muito diferente. Só que era dado a abusar dos santos.

Além de vaquejar pelo sertão das Gerais, pelas fazendas beira-rios, quando embestava, só dava mesmo era de falar mal das coisas de Igreja. Como nenhum outro, era craque no laço. Sabia fisgar boi pelos chifres, pescoço, corpo e até pelo rabo.

O “home” era indigitado e gostava de mulher. Dia de muita luta atrás de marruás chegava noite. O quarto dos vaqueiros, onde ia dormir era um rancho velho. Era de pau-a-pique, com muitas frestas. Estava entulhado de sacos de estercos.

Ajeitou sua rede e deitou. Os outros vaqueiros dormiram logo. Joaquinzão começou a pensar em sua pequena. Pensava na mocinha que tinha viajado para Porto dos Índios. – Seria ela uma índia coroada? – pensava. – Aí que qualquer uma me servia agora, índia, mulata ou negra – continuava pensando.

Mas, nem só de sonho vive um homem. Joaquinzão largou de seu pensamento e voltou-se para o lugar onde vivia. Ao seu lado a sua pequena Das Dores. Fazia anos que morava junto naquela casinha beira rio Preto. E ele continuava o mesmo: renitente, desafiante a santo e ainda por cima sonâmbulo.

Certa noite levantou-se de sua cama dormindo. Pegou a espingarda e deu tirambaço de doze que ressoou no vale. Quase matou de susto a Das Dores. Ainda de madrugada pegou os bois que ficaram presos no curral de véspera e fez a junta puxar o carro de rodas de pau.

Amanhecia o dia e rangia o carro-de-boi. – Aonde ocê vai home, hoje é dia de São Jorge? – gritou a Das Dores. Era dia santo e não haveria de ninguém trabalhar. – Claro que eu sei, não estou maluco – respondeu Joaquinzão.

Em cima do carro o rolo de arame farpado, cavadeira, enxadão e mourões. – Deixe para fazer cerca amanhã, home de Deus – continuava das Dores. Mas ele não se intimidou: - Eu só lá home de ter medo de santo, Das Dores?

A mulher ficou espantada com tanto desrespeito de Joaquinzão a São Jorge, seu santo de fé. Logo após sua saída a mulher escutou um barulhão, dois berros horripilantes e um grito: - Me ajuda das Dores! Ela saiu correndo, passou por dentro do curral, na estrada e chegou à ponte.

Olhou e viu o Joaquinzão se dabatendo n’água, enquanto a junta de bois se afogava na correnteza para o fundo do rio, puxada pelo peso do carro-de-boi. Felizmente o “home” sabia nadar e saiu ileso do outro lado da margem do rio. O estrago poderia ter sido maior com a sua morte.

Joaquinzão ainda viveu muitos anos depois que a ponte caiu. Mas ele não gostava que ninguém tocasse nesse assunto. Ele virou beato e fiel a São Jorge. No dia do santo, 23 de junho, viajava de madrugada, sem carro-de-boi, para não chegar atrasado à missa do santo, em Santana do Deserto, outro sertão de serra das Gerais.

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