Esperteza de mineiro

Edição: 549 Publicado por: Aloisio Melo Morais em 08/06/2017 as 09:57

 
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Desde os séculos passados (XVIII e XIX) que a pecuária leiteira é uma boa fonte de divisas para os fazendeiros mineiros. Naquela época, a cobrança de taxas alfandegárias menores estimulava os tropeiros a passar pelo Caminho de Rio Preto.

Bois, cavalos e até porcos eram conduzidos por esse trajeto. Eram marchandes que compravam animais das fazendas mineiras e vendiam no Rio de Janeiro. Eles vinham do rio das Mortes e eram de aparência facilmente reconhecida.

Andavam descalços com as pernas nuas e uma comprida vara na mão. Geralmente caminhavam a passos lentos, calmamente. Traziam a cabeça coberta por um chapéu de abas estreitas, de copa alta e arredondada.

Eram também homens de negócios, embora o jeito brusco e de poucas conversas insinuasse com pouca vocação para a compra e venda. Eram quietos e observadores, como convém a qualquer mineirinho esperto que enxerga além das montanhas.

Num certo dia, de regresso do Rio de Janeiro, depois da entrega de uma partida de gado, um desses marchandes parou em uma fazenda próxima à divisa com Minas. Viu uma porcada enorme na pocilga da fazenda.

Ficou entusiasmado de comprar. O dinheiro trouxera da viagem bem sucedida na venda do gado. Não deu outra, comprou do fazendeiro a porcada toda, 23 cabeças e, de novo, começou uma nova caminhada.

Não estava acostumado a tocar porcos, mas tinha em mente um comprador em Rio Preto. Por isso, mesmo assim, resolvera enfrentar o desafio. No íntimo sonhava com mais dinheiro que ganharia com a possível venda.

A dois dias de distância do arraial o marchante e seu ajudante sabiam que enfrentariam muitos obstáculos com a porcada. Além dos trilhos de terras estreitos, subindo e descendo morros, ainda havia os matos a atravessar.

Era preciso escolher um lugar para dormir que fosse longe da floresta. Seria perigoso demais deixar os porcos próximos onde tivesse onça. Na certa o bicho pegaria algum à noite se não houvesse esse cuidado.

Mas, o dia seguinte apareceu e nada de perda de porco por onça aconteceu. O marchande, agora mais confiante ainda, só tinha a enfrentar mais um dia de sol quente para chegar a Rio Preto. Fazia conta do quanto ganharia com a venda da porcada.

- Vou ganhar bem dinheiro – pensava.

E assim, foi levando os bichos pelo caminho. De vez em quando, entre um e outro cuidado com um porco estafado, com a boca babando de sede, o homem voltava a pensar:

- Não pode morrer nenhum, senão!!!

Até que já quase chegando ao arraial, o homem resolveu limpar a sujeira da porcada para que quando chegasse à presença do comprador causasse uma boa impressão.

Próximo a um pequeno regato o marchande e seu ajudante reuniram a bicharada para um banho coletivo, mesmo debaixo do sol ardente.

- Imaginem o que aconteceu?

Os porcos de corpos quentes, depois de se banharem foram, um a um, ficando roxos e morrendo.

Não sobrou nem um para o mineirinho esperto vender.

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