- Escrever, por quê?

Edição: 552 Publicado por: Aolisio Melo Morais em 29/06/2017 as 09:46

 
Leitura sugerida

Escrever impõe olhos atentos. É que os detalhes do dia a dia e, mesmo do passado, podem se transformar em ficção pela nossa Bic. Há escritos e “iscritos”. Uns são apenas palavras que se odeiam. Mas, outros escritos, pela sua poesia, transbordam fantasias.

Um bom texto, do começo ao fim, tem que suscitar sonhos. Senão, não aguentamos passar da primeira para a segunda frase. Escrever é meio que assim, expondo nossas entranhas. É uma remoção contínua das nossas vísceras, enxadando a nossa sensibilidade.

Depois, é esperar, como o lagarto que se expõe ao sol. E saber se valeu a pena ser lido. É mesmo assim: meu que narcísico o prazer de escrever, é o gozo de se espelhar na reação do outro.

O escrito fala e a alma responde. A arte de escrever é escavar. É encontrar a palavra certa na hora certa. Quem escrevinha sabe que as palavras se escondem de nós. Elas também pesam. São a causa da comunicação, a mais impressionante entre, todas, as nossas invenções.

Machado de Assis ensinou que as palavras têm sexo, amam-se umas às outras, casam-se. É pelo casamento delas que nasce, ele dizia, o estilo. Diz Frei Betto: “a força da palavra é tão miraculosa que, por vezes, a tememos. Orgulhosos, sonegamos afeto, avarentos, engolimos palavras de ternura que traria luz. Assim, fazemos da palavra, que é gratuita, mercadoria pesada na balança dos sentimentos”.

Como Guimarães Rosa, que assim iniciou o seu maravilhoso Grande Sertões Veredas com a insólita palavra: “Nonada”. Não nada. Não, nada. Convite ao silêncio, à contemplação, à alma despida de fantasias.

Enfim, voltando ao Frei Betto, em seu Ofício de Escrever: “sabem os místicos que, sem dizer “não” e almejar o Nada, é impossível ouvir, no segredo do coração, a palavra de Deus que, neles, se faz Sim e Tudo, expressão amorosa e ressonância criativa”.

Obs.: Lendo o maravilhoso livro Ofício de Escrever do Frei Betto fiquei a pensar nestes últimos dias: - “Qual é a minha missão ao escrever?”. Atordoa-me, leitor, a indagação, mas cheguei à conclusão de que a minha missão é muito simples, a de apenas entreter.

Não levo na mala dólares ou reais, mas palavras para alegrar. Como um Dom Quixote aos avessos, as minhas palavras devem ser apenas para proporcionar humor, nada mais. Escrevo, parafraseando, mais uma vez Frei Betto, para ser feliz. E como ele, uma vez publicado o texto já não me pertence, é para quem o lê.

Minhas crônicas não são para defender causas ou fazer proselitismo desta ou daquela ideia. Mas, para refletir sorrisos. É simples assim, a razão da minha missão: estar feliz junto com vocês, leitores.

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