Argumentos

Edição: 553 Publicado por: Redação em 05/07/2017 as 09:38

 
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Sempre ouvimos dizer que o crime não compensa. Porém, apesar da constatação, baseada no final das histórias de quem envereda por estes caminhos tortuosos, o que assistimos é, ao contrário, do incremento cada vez maior de jovens e adultos de meia idade na carreira criminosa. A maioria dos argumentos, que tentam explicar tal faceta, reportam-se à impunidade como motivo maior do tumor maligno que tomou conta dos grandes centros, com reflexos claros nas cidades do interior – vide nossas páginas policiais.

Mas de que vale a impunidade se, antes dela, a injustiça social já fez o seu trabalho de jogar pessoas, feitas eu e você no limbo dos limbos da mais total falta de tudo em suas vidas. Se de todo, não somos todos miseráveis, poucos somos os privilegiados, a quem cabe deter sonhos com perspectivas de realizá-los, mais dia, menos dia, a partir de esforço, estudo e trabalho. Em geral, nossos jovens e adultos de meia idade se veem marginalizados pelas parcas oportunidades, marginalizados pelas chances que o futuro vislumbrável lhes trará e marginalizados pelo cotidiano de pouca solidariedade, de pouco afeto e pouca atenção seja da família, seja da sociedade, seja do Estado.

Há dez anos atuamos e há dez anos vivenciamos, sempre bem de perto, o escalar consistente do combate ao crime, por parte de nossas forças policiais. Apesar da publicidade também constante das operações e prisões, nos parece que em nada, tais ações, arrefecem as intenções de novos soldados do crime, arregimentados corriqueiramente todos os dias, nas ruas, nos bairros e periferias de forma praticamente natural. Lá, onde falta ocupação, emprego, educação, diversão, presença familiar, esporte, cultura e recursos de toda ordem, sobram más companhias, más influências, cabeças vazias e vontade de se fazer besteira para algo ter de verdade. Este roteiro é malhado e visível, em todos os países que vivem sob o jugo do capitalismo selvagem. A mídia jorra em todos, indiscriminadamente, os prazeres do consumo a todo e qualquer custo. E qual jovem não quer algo mais? Qual jovem não quer prazer? E neste momento, quem lhe oferece uma oportunidade instantânea de ganhar dinheiro fácil? Acertou quem respondeu o traficante. E do negócio bem sucedido, apesar de ilegal, provém a violência das disputas, concorrências, lutas por territórios e fregueses.

Infelizmente, o crime passou a fazer parte de nosso cotidiano brasileiro. E como se já não bastasse, a classe política, o brasileiro honesto, aquele que trabalha, que produz e que gera a riqueza da Nação, está acuado, cercado por ameaças formais e informais de crime generalizado. Receitas rasteiras de solução não cabem mais, tamanho é o problema. Se não houver um pacto amplo, justo e urgente, com investimentos pesados e consistentes na juventude, tornando-a atendida em todos os seus anseios e necessidades sociais e educacionais, de nada adiantarão reformas em códigos penais, ou reformas políticas, previdenciárias ou quaisquer que sejam. Estamos diante de gerações perdidas, filhos da crise, da exclusão e da mais pura e cruel solidão que adota o crime como companhia. É triste, mas a realidade dura passa longe dos discursos que buscam simplificar o que se tornou complexo, por escamotear as verdadeiras motivações de pessoas comuns, como eu e como você.

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