A herança do Barão do Rio Preto

Edição: 553 Publicado por: Aloisio Melo Morais em 06/07/2017 as 09:18

 
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Os estudos genealógicos têm variados motivos. O mais simples é o interesse de se descobrir as origens da família. O mais complicado desse empenho é o da busca pelas razões sanguíneas que nos levam a uma determinada herança.

Não é essa uma luta fácil. Mas, por vezes é até justa. Principalmente se temos algum direito. Então, por que não lutar? E os legados imaginários que se cuidem se estou disposto a batalhar pelos meus direitos. Farejar herança é ousar ir atrás de tesouro.

Às vezes, ao final da busca não chegamos a lugar nenhum. Outras, ganhamos o sonhado baú de moedas de ouro. Enfim, é uma luta, se inglória, pelo menos gratificante. Sonhamos ficar ricos e milionários, mesmo que continuando pobres e devedores da conta de luz, aluguel, etc.

Tem a história da herança do Barão do Rio Preto que mexe e remexe, de vez em quando, com a família Nefrásio Buganvile, de origem francesa. Eles vieram morar nessas nossas terras nos idos de 1700 e poucos e trouxeram riquezas, depois, muito depois, ficaram pobres.

Hoje reclamam a herança do barão. Acham que são donos de praças, ruas e até do céu que circunda o nosso município. Dezenas dos membros da família Buganvile, de tempos em tempos, revolvem os tombos da igreja, bispado, cartórios e documentos dos arquivos públicos.

Cada ramo da família tem esperança de herdar mais que o outro. Cada um sonega seus achados dos primos querendo lambiscar, sozinho, milhões do Banco Central Suíço. Dizem os Buganviles mais afoitos que o barão deixou até terrenos no Rio de Janeiro, onde hoje é o Maracanã.

E dizem que vão continuar na luta até ganhar o estádio, que querem leiloar para os times cariocas arrematar. Juram uns que têm até terras de sesmarias do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais. Outros garantem que o Barão deixou até castelos na Europa.

E toda essa riqueza é dos herdeiros do barão. Há também Buganviles mais sofisticados. Moradores em cidades grandes. Eu mesmo conheci um que morava em Belo Horizonte: o Dr. Aristofanildo Calheiros Buganvile, especialista na herança do barão.

Ele cuidava da genealogia da família em causa própria. Estudava o assunto na calada da noite. Escondia seus escritos e documentos até da mulher e dos filhos. Mas, apesar disso, não conseguiu que a matéria ficasse recolhida a quatro paredes.

A história da herança cada vez mais se espalhou. Grosas de Nefrásios Buganviles tomaram conhecimento da riqueza deixada pelo barão. Contrataram advogados, consultaram tabeliões e por aí afora. Quem gracejava com a história era Jorgino (Jorge Nefrásio Buganvile).

Dono de um botequim no vilarejo era procurado pelos parentes. Era o conselheiro para assuntos da herança do barão. Muito hirto inspirava a confiança dos parentes. No fundo, no fundo mesmo, o Jorgino era um tremendo gozador.

Ele não desmentia nunca, confirmava tudo, dizia: - É verdade, o nosso “tá-tá-tá-ravô” deixou para nós o Maracanã e muitos outros bens. Ao que o primo, vindo das lonjuras da Serra de São Gabriel, dois dias de viagem, só para saber dos seus direitos na herança, meneava a cabeça:

- Home bão o barão. Eu não preciso de tanto pra viver. Ele não precisava deixar tudo isso, bastava um eito de duas varas de terra e tava bão.

- Mas, você, primo, assim descalço, não arruma nada. Essa herança é coisa chic. Pra você receber ela precisa estar calçado com sapatos engraxados – advertia Jorgino. E lá ia o parente para a loja comprar sapato.

- O quê? Pra você herdar o castelo nas Europa você tem que primeiro cortar essa juba de cabelo – continuava a advertir Jorgino. E, lá ia outra vez, o outro primo para o barbeiro. E, assim ia fazendo o Jorgino, de dentro do botequim comandava o espetáculo, rindo-se da parentada.

E foi tanta mentira e graça juntas que o próprio Jorgino começou a acreditar nele mesmo. Contratou advogado e pagou alto pra entrar com o processo do inventário e divisão da herança do barão. Quando ficou sabendo, o Dr. Aristofanildo Calheiros Buganvile assim sentenciou:

- Bem feito, Jorgino, quem com riso fere, com riso será ferido.

 

NOTA: Foi boa a iniciativa da Prefeitura de Rio Preto de criar na cidade o Circuito Histórico Cultural. Agora o turista que visitar o centro da cidade vai se deparar com placas, em número de nove, ao lado dos monumentos históricos, como igrejas, praça, paredão, rua, mirante, Palacete da Baronesa e o museu, com descrições que remontam ao passado histórico de Rio Preto. O trabalho de pesquisa e o texto são do rio-pretano Rodrigo Magalhães Teixeira, escritor e secretário do Conselho de Patrimônio Histórico de Rio Preto. Vale a pena visitar o roteiro do circuito.

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