Há 128 anos!

Edição: 572 Publicado por: Marilda Vivas em 16/11/2017 as 07:25

 
Leitura sugerida

Em novembro de 1958, o jornal “Diário de Notícias”, do Rio de Janeiro, compilou, numa edição especial (15 p.) do suplemento “O Brasil em Jornal”, noticiários sobre os acontecimentos ocorridos por ocasião da proclamação da República, seus antecedentes e fatos correlatos fora do país. Autores: pesquisa e redação: Profs. Cláudio Soares, Marcos de Castro, Rubem de Azevedo e Zuenir Carlos Ventura. Fotos: Ronaldo Theobaldo. Paginação: Waldyr Figueiredo. Direção e Supervisão: Amaral Netto. É dessa edição, que guardo intacta, que transcrevo algumas notas.

 

Proclamada a República!

“Rio, 15 de novembro, (Urgente).

Um marechal de 2 anos, Manoel Deodoro da Fonseca, comandando uma revolução branca do Exército e da Marinha, acaba de derrubar a monarquia no Brasil, proclamando, ao mesmo tempo, a República.

O movimento, que se concretiza justamente no momento em que se comemora o centenário da Revolução Francesa, teve como canto de guerra a própria Marselhesa”.

O Império Brasileiro que, por ser o único das Américas, era cognominado de “flor exótica”, tomba quando completa 67 anos de existência, pouco mais que o soberano deposto, que conta com 64 anos.

O único ferido – quatro penetrações de balas – foi o barão de Ladário, ministro da Marinha do regime deposto, que resistiu de revólver na mão à ordem de prisão do próprio chefe revolucionário Deodoro da Fonseca.

(...)”

 

Barão de Ladário, a única vítima

Madrugada do dia 15. Uma da manhã. Foi na esquina da rua São Lourenço com a Praça da Aclamação que o confronto se deu. Segundo narra o jornal, a ordem de prisão partiu do alferes-aluno Adolfo Pena Filho e, em seguida, do próprio marechal Deodoro da Fonseca. Sem pronunciar uma palavra, o barão sacou da arma e disparou dois tiros. Ou pelo menos tentou. Da primeira vez a bala engasgou. Da segunda errou o alvo. Ato contínuo, os soldados que acompanhavam Deodoro fizeram vários disparos m sua direção. Dos quatro que encontraram o alvo, três não tiveram nenhuma gravidade. O quarto ferimento, na região sacro-ilíaca, embora não tenha sido penetrante, foi o que fez maior estrago. Mas, nada que o tempo, regado a cuidados, não desse um jeito. Sete médicos socorreram o baleado. O sexto deles, que também era barão, dr. Pedro Afonso, aproveitando a presença do repórter, quando esse já se retirava, lhe fez a seguinte solicitação:

- “O amigo poderia noticiar em seu jornal que estou mudando meu escritório cirúrgico para a rua Primeiro de Março, número 67. É um grande favor que me faz.”  

E o repórter fez!

 

Deodoro doente

“A muitos passou, pelo alvoroço natural em dias de revolução, o estado de saúde do Marechal Deodoro, chefe militar do movimento. Quando o tenente Cincinato de Araújo chegou à residência do Marechal para informar que a Segunda Brigada estava em armas, encontrou Deodoro doente. A notícia, porém, fez cessar todos os padecimentos do bravo militar. Passara a noite toda, arquejando, recostado numa cadeira, com o peito cheio de sinapismos. Esqueceu tudo, levantou-se, vestiu-se, e saiu em companhia do tenente.”

“Ao saltar do carro que o conduzia para montar a cavalo, estava fardado mas não trazia a espada. Seu ventre dolorido não podia suportar o cinto e, menos ainda, o peso da espada. Foi mesmo ajudado a montar. Foi nesse estado de saúde precário que Deodoro chefiou o movimento do dia 15. Poucos conheciam seus sofrimentos físicos.”

“E mais um detalhe: ao saudar a República, que proclamava naquele momento, no campo de Santana, Deodoro ergueu festivamente o quépi, num gesto de certa maneira antimilitar. Não fôra sua a culpa. Faltava-lhe a espada.” (Transcrito da Edição Extra d’O Brasil em Jornal - Suplemento do Diário de Notícias. Novembro de 1889).

 

Revolução em dia de pagamento        

A revolução coincidiu com o pagamento dos fornecedores da Casa Imperial. O “Jornal do Commércio” (RJ), daquele dia, publicou o seguinte anúncio: “CASA IMPERIAL – Na sexta-feira, 15 do corrente, das 10 horas ao meio-dia, pagar-se-ão todas as contas de fornecimentos, no Tesouro do Paço da cidade.”

 

Últimos atos

“Rio, 6 (Do repórter credenciado no Paço Imperial).

Em meio a tantas preocupações, presenciamos uma curiosa cena. O Visconde Nogueira da Gama, que é o mordomo da Coroa, apresentou ao Imperador dois decretos, que este assina. O primeiro é aprovação de um empréstimo de mil contos que ele concluiu há dias com o Banco do Brasil em nome da casa Imperial e o segundo a nomeação de um moço fidalgo, já decidida.

O Conde d’Eu, que a tudo assistia, a nosso lado, não pôde deixar de murmurar: Ora esta. Neste momento!”. 

 

Esaú e Jacó

A única vítima da revolução, o Barão de Ladário, e Machado de Assis eram vizinhos, no Cosme Velho. Embora o escritor nunca tenha expressado com clareza sua opinião sobre o acontecimento, a proclamação da República vai ser abordada no romance Esaú e Jacó, no diálogo mantido entre o Conselheiro Aires e Custódio, dono de uma confeitaria. Entre ironias, metáforas e muito humor, o episódio da tabuleta (capítulos 49-63), como é conhecido, é o retrato fiel de um país que muda para deixar tudo como está. Império ou República, não importa o nome na tabuleta visto que tudo não passa de fachada.

 

Falam os redatores

No sentido de dar aos leitores uma visão de conjunto do nosso país, os redatores de “O Brasil em Jornal” compilaram algumas informações interessantes acerca do patrimônio que o Império legou à República.

No campo da Educação e da Cultura foram divulgados os seguintes dados: (a) 8.157 escolas, onde estariam matriculados 258.800 alunos; (b) 533 jornais; (c) Escolas do Exército e da Marinha (Militar e Naval); (d) Duas academias de Direito (Recife e São Paulo); (e) Duas faculdades de Medicina (Rio de Janeiro e Bahia; (e) Duas escolas de Engenharia (Politécnica do Rio e de Minas, em Ouro Preto).

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