Foi apenas uma questão de tempo

Edição: 574 Publicado por: Marilda Vivas em 29/11/2017 as 08:07

 
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Tombamento x preservação

Mais uma vez ficou claro que não basta o tombamento para a preservação do bem. Menos ainda se ele não for assumido pela comunidade como algo importante para a sua memória. Se a sociedade entende que a preservação de um imóvel é algo importante para se manter a sua história e a história de onde ela vive, passa a respeitar e admirar aquele bem. Sem esse tipo de ânimo não se preserva verdadeiramente. Em outros termos, sem o envolvimento da sociedade, o poder público não consegue assegurar tudo o que rege.

 

Casarão 444

A ideia de preservação está associada a conservar algo do desaparecimento. Resgatar, restaurar e preservar tem o claro objetivo de estabelecer uma continuidade com o passado de modo que o que foi criado pelas antigas gerações seja perpetuado para as futuras. Quem de nós não preserva algo que julga ser importante ter ao seu lado ou no seu convívio por mais tempo? No caso do Casarão 444 não teríamos nada diferente disso. Mesmo porque, os esforços direcionados no sentido de preservá-lo visavam colocá-lo à disposição da população para usos futuros.

Agora, tudo isso é passado. Demolido, a despeito do muito que resistiu em entregar os pontos, o 444 tornou-se um marco do enfraquecimento de nossa memória. E, se memória e esquecimento são aspectos que constantemente rondam minhas inquietações, andei registrando algumas cenas da demolição. Coisas de amadora, por certo. Profissionalmente, coube ao Ricardo Reis, fotógrafo por excelência, dar corpo e forma ao cenário criado.

Os irmãos Branca e Wilson Figueira também fizeram registros preciosos e privilegiados. As fotos compartilhadas não me deixam mentir. Como observado, o Casarão 444 não entregou os pontos com facilidade. Os trabalhadores que atuaram no desmonte suaram a camisa para desfazer a solidez da técnica portuguesa aplicada à sua construção. Demolir tijolo por tijolo, adobe por adobe não foi qualquer tarefa.

Beirando 170 anos de existência, será a solidez dessas fotos que comprovará o quanto aguentaria outros tantos. Um dia, quem sabe, esses registros vêm a público. E a vontade de que isso aconteça me faz desejar que também se faça o assentamento, com todas as letras, dos trabalhadores que suaram a camisa. Não pode e não deve haver invisibilidades em momentos únicos como esse.     

 

Anotações à parte

Amigas residentes em Palmas (TO), com quem dividi essa passagem, me ligam, dias depois, para mencionar que em alguns países asiáticos o número quatro é considerado um número de azar. Algo parecido com o número treze, por aqui. A explicação está na cultura chinesa, que divide os algarismos em números de sorte e azar de acordo com a similaridade que a pronúncia de cada um deles tem com outras palavras.

 

Desconhecendo esse aspecto, pesquiso e comprovo.  Para chineses, japoneses, coreanos e taiwaneses esse número está diretamente relacionado à morte. Embora algumas pessoas encarem o azar trazido pelo número 4 apenas como uma superstição, muitas pessoas têm seu cotidiano afetado por levarem a história realmente a sério. Existe, inclusive, um nome para quem tem um medo extremo do número 4: tetrafobia.

Mas isso é assunto para a próxima coluna. 

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