Consciência negra

Edição: 575 Publicado por: Rodrigo Magalhães em 06/12/2017 as 09:06

 
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Dezembro de 1828. Por volta de dez horas o inglês R. Walsh, com o seu grupo composto de dois cavaleiros e uma mula guiada por um “mulato”, adentram na cidade de Valença. Segundo relata em seu diário de viagem (“Notícias do Brasil”), esse era “o primeiro agrupamento de casas que tínhamos visto desde que deixamos o Rio... Tratava-se originariamente de uma das aldeias onde se instalavam os índios catequisados. Havia quatro tribos ali: os Puris, de pele escura e baixa estatura; os Araris, de pele mais clara e constituição mais robusta; os Pitas e os Xumettos, todos eles primitivos habitantes do Vale do Paraíba... Como sinal de civilização, eles usam os cabelos aparados, e não a lhes cair pelos ombros, como antes; também não se distinguem pelo seu vestuário.

A cidade atualmente conta com cinquenta ou sessenta casas, além de uma igreja de formato irregular, construída na encosta de um morro. No sopé deste fica a estalagem, conforme o nome escrito numa tabuleta pregada numa quina da casa. Fomos levados para a sala de jantar, mobiliada caprichosamente com cadeiras verdes de frisos dourados, uma mesa coberta com um oleado, um espelho e cortinas nas janelas. Nossa refeição foi logo servida, consistindo de uma vasta travessa de carne de porco frita, um fumegante prato de verduras, uma enorme terrina de feijão preto cozido com toucinho e um prato de ovos fritos.

Mais tarde tivemos diante dos olhos uma cena altamente repulsiva para sentimentos europeus, principalmente para os que a testemunhavam pela primeira vez. Tínhamos passado, no caminho, por várias levas de escravos, que haviam sido comprados no Rio e vinham sendo tangidos pelas estradas como um rebanho de ovelhas, para serem vendidos nos diversos povoados. Foi instalado uma espécie de mercado defronte da porta da estalagem, e cerca de trinta homens, mulheres e crianças foram levados para ali. O condutor era a imagem perfeita que eu tinha do tipo de sujeito que se dedica a esse serviço. Era um homem alto e macilento, de cor parda... Trazia na mão um comprido chicote de duas pontas, que agitava acima das cabeças do bando de escravos, forçando-os a se enfileirarem para serem examinados; muitos deles, principalmente as crianças, tremiam como varas verdes.

O homem deu então uma volta pelo povoado, em busca de compradores, e quando estes chegaram o mercado foi aberto. Os escravos, tanto os homens como as mulheres, recebiam ordem de caminhar de um lado para o outro com passos variados, sendo examinados e apalpados exatamente como fazem os açougueiros com os bois. De vez em quando o vendedor dava-lhes uma chicotada para fazê-los saltar, mostrando assim que tinham pernas ágeis; fazia-os também gritar e chorar, para que os compradores vissem que tinham bons pulmões.

Entre as pessoas ali presentes achava-se uma senhora brasileira, a qual constituía um belo exemplo das mulheres do campo, de sua classe. Usava um chapéu de feltro redondo, semelhante aos dos ingleses, e sob ele um lenço envolvendo-lhe a cabeça como uma touca de dormir. Embora o calor fosse escaldante, ela estava envolta numa ampla capa de lã escarlate, a qual, entretanto, mantinha arrepanhada o suficiente para deixar à mostra os sapatos bordados e as meias de seda. Estava acompanhada de um escravo negro, que lhe protegia a cabeça com um guarda-sol. Ela passou em revista os escravos, lenta e deliberadamente, dando a impressão de que estava comprando orgulhosamente a sua própria importância com a miséria deles.

Ao nos afastarmos de semelhante espetáculo, onde tudo – embora não deixasse de constituir novidade para nós – era revoltante, fomos abordados por um homem com um espalhafatoso colete de seda estampada de flores, que falava alguma coisa de inglês e disse ser um médico alemão estabelecido no lugar. Informou-nos que o povo que habitava a região tratava os escravos com extrema desumanidade. Forneciam-lhes apenas uma porção mínima de farinha ou feijão, e nenhum alimento de origem animal; no entanto, com essa mísera ração forçavam-nos a trabalhar quatorze horas por dia, mantendo-os expostos às variações de calor, frio e umidade, sem a menor consideração por sua saúde e conforto – ou por sua vida”.

Quase duzentos anos depois é importante resgatarmos esse triste episódio. Por mais repugnantes e inimagináveis que sejam essas fortes cenas acima descritas, a história nos ensina que a chamada “amnésia envergonhada de Rui Barbosa” é uma tolice. Pelo contrário, é fundamental conhecermos o passado, para entendermos o presente e melhorarmos no futuro. Que a consciência negra não seja um dia apenas, mas sim uma constante em nossas vidas.

*Rodrigo Magalhães é Oficial de Justiça, pesquisador e escritor.

1 comentários

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José Ricardo de Almeida em 21/12/2017 às 09:36 disse:

Quando vemos que as nações mais avançadas atualmente são aquelas que que não empregaram o trabalho escravo em seu desenvolvimento (os EUA de hoje são o resultado da vitória do Norte livre e industrializado sobre o Sul escravagista e agrário), percebemos o quanto atrasamos o nosso desenvolvimento econômico e social devido aos 400 vergonhosos anos que vivemos.
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