O Cacique Bocumam

Edição: 577 Publicado por: Rodrigo Magalhães Teixeira em 20/12/2017 as 09:56

 
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Março de 1803. José Rodrigues da Cruz, então diretor de índios de Valença, escreve uma carta de ofício ao vice-rei do estado do Brasil, dom Fernando José de Portugal. Informa que estava envolvido em um reconhecimento de índios nas cabeceiras dos rios Preto e Flores, os Araris, “únicos que me parece restavam”, escreveria. Um ano depois, certa sociedade de índios Ararizes procurou José Rodrigues para denunciar alguns moradores do então Arraial do Rio Preto, em Minas Gerais. Queriam os índios encontrar uma solução para “um caso de conflito e morte entre a população indígena e os moradores riopretanos”.

O diretor então envia uma carta da Aldeia de Valença ao Sr. Comandante da Guarda do Presídio do Rio Preto, Capitão Miguel Rodrigues da Costa, na qual ele tenta contar o que foi a ele narrado por dois índios sobreviventes de uma tocaia: um índio com uma facada nas costas e o outro com um braço bem maltratado e cortado. Queixaram-se esses índios Ararizes que nas proximidades do Presídio Velho de Rio Preto (atual Fazenda Santa Clara), avistaram uma plantação e, com fome, arrancaram umas mandiocas para se alimentarem. E que anoitecendo, dormiram no local, onde durante a noite apareceram três pessoas com facões e mataram três índios a facadas e feriram esses dois que escaparam...

As circunstâncias alimentavam rumores de crise ou levante de índios, liderados por um dos caciques, o Bocumam. Em geral, o cacique era uma espécie de rei e senhor de trinta, oitenta ou cem famílias que lhe obedeciam. Tudo se reduzia ao cacique, que era cabeça de governo. Tudo indica que Bocumam era o líder maioral dos índios do Sertão do Rio Preto e, por outro lado, o cacique mais respeitado e temido pelos brancos. Por isso, José Rodrigues envia outra carta ao Presídio de Rio Preto. Segundo ele, os índios, com as notícias das mortes, mostravam-se “revolvidos e ofendidos”. Como súditos do rei, a nação chefiada por Bocumam reivindicava por seus direitos e pressionavam-no mandar indagar os agressores e prendê-los.

Até em uma terceira e última carta aos militares de Rio Preto, o diretor dos índios de Valença informa do sumiço de Bocumam e coloca em alertas aquelas autoridades, sobre o perigo de uma retaliação aos fazendeiros mineiros que esse fato poderia significar: “...Bocumam, o capitão dos ditos índios foi buscar a sua Gente e até agora não vejo antes os que se achavam aqui na Aldeia no dia 28 do corrente, se retiraram todos para o Sertão...”

Não há registro do resultado dessa batalha que se anunciara. Talvez pelo fato de José Rodrigues, por vezes acusado de monopolizar a tutela daqueles índios a fim de obter mão de obra para as suas fazendas, ter casado uma de suas filhas justamente com o Capitão Miguel Rodrigues da Costa. Sabe-se, porém, que esse primeiro governante e líder dos primitivos habitantes de Valença não sobreviveu à “caça aos gentios” promovida na região. Alguns anos depois registraram que “com a divisão das terras da região, os selvagens, reduzidos a um pequeno número e desanimados com a morte de um de seus maiorais – o Bocumam – começaram a passar para outras hordas...”

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