Tempo vs tempo

Edição: 578 Publicado por: Marilda Vivas em 03/01/2018 as 08:23

 
Leitura sugerida

Na mitologia grega encontramos duas palavras para o tempo: Chronos e Kairós.  

Enquanto Chronos é o “tempo dos homens”, de natureza quantitativa, sequencial e cronológica (hora, minuto, segundo; ano, meses, semanas e dias, etc.), Kairós é o tempo que não pode ser mensurado, o momento em que algo especial ou oportuno acontece. Kairós é o “tempo de Deus”.

Conta-se que Kairós passa por nós constantemente e que só pode ser capturado de frente e por aquele que está atento a seus rápidos movimentos. Coerente a esse dado, esse tempo era identificado por um jovem que sempre estava nu, de asas nos ombros e nos tornozelos, e com um curioso corte de cabelos: cabeça calva com um generoso topete na frente, representando o caráter instantâneo de sua apreensão:  uma vez tendo passado por nós sem ser notado, sua calvice não nos permitirá detê-lo após sua passagem (não tendo cabelos na nuca, não há como puxá-lo de volta). Portanto, simbolicamente, Kairós expressa a dificuldade que temos de agarrar uma oportunidade por não estarmos vigilantes e atentos.

Chronos, por seu turno, é representado por um ancião, símbolo da experiência e, por que não, também da morte. Em uma analogia, é possível dizer que Chronos, o ser mitológico que devora seus filhos, é tão amedrontador que seguimos o seu ritmo, temendo ser devorados por ele.

Imersos no tempo de Chronos, que nos escraviza delimitando tudo o que devemos fazer, dia a dia, nos dando a sensação de que o tempo está passando e que sempre estamos deixando ou perdendo algo, precisamos criar estratégias que nos permitam roubar dele fatias de tempo a serem dedicadas a Krónos. Equilibra.

Ao iniciar o ano, vamos procurar deixar espaços livres na agenda pessoal e da família. Os gregos sabiam das coisas.

 

Tempo-será (Manuel Bandeira)

A Eternidade está longe

(Menos longe que o estirão

que existe entre o meu desejo,

e a palma da minha mão).

 

Um dia serei feliz?

Sim, mas não há de ser já:

A Eternidade está longe,

Brinca de tempo-será.

 

As armadilhas do tempo (Eduardo Galeano)

Sentada de cócoras na cama, ela olhou-o longamente, percorreu seu corpo nu da cabeça aos pés, como se estudasse as sardas e os poros, e disse:

- A única coisa que eu mudaria em você é o endereço.

E a partir de então viveram juntos, foram juntos, se divertiam brigando pelo jornal no café-da-manhã, e cozinhavam inventando e dormiam feito um nó.

Agora este homem, mutilado dela, quer recordá-la como era. Como era qualquer uma das que ela era, cada uma com sua própria graça e seu próprio poderio, porque aquela mulher tinha o espantoso costume de nascer com frequência.

Mas não. A memória se nega. A memória não quer devolver a ele nada além desse corpo gelado onde ela não estava, esse corpo vazio das muitas mulheres que ela foi.

(Bocas do tempo.  L&PM, 2012)

 

Liberação de verbas

No dia 29 de novembro, o Ministério das Cidades liberou verbas para pavimentação e microdrenagem no município de Valença no valor de R$ 246.550,00, de um total de R$ 493.100,00 objeto do convênio nº 820082.   

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