O Velório

Edição: 579 Publicado por: Gilberto Monteiro em 10/01/2018 as 09:46

 
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Valença dispõe de uma boa Capela Mortuária. Os espaços são largos, as janelas amplas e a limpeza sempre perfeita. Até uma amendoeira dando sombra, fica em frente dela.

Os velórios são concorridos pois, numa cidade de tal porte, todos ou quase todos, se conhecem.

É sempre tanta gente que o velado deve se incomodar com a conversa alta. É hora de cumprir a obrigação mas o ato de velar não é impeditivo de se colocar os assuntos em dia.

O morto, da vez era, o Joaquim.

Homem trabalhador que muito havia conquistado na vida: casas alugadas, lojas, terrenos e tudo o mais. Até um número regular de amantes....

Os filhos crescidos, educados, não traziam problemas. Um só, deles, sempre desafiou o pobre Joaquim. O Quinzinho, era o apelido do rapaz, gostava de aspirar um misterioso pozinho branco que o levava às nuvens. Nessa hora ele até gostava do pai.

Todos estavam ali velando: esposa, filhos, amigos e até os amigos só daquela hora. Hora considerada boa porque morto não fala.

As coroas iam chegando. De todos os tamanhos. De todas as flores. De todas as cores. Afinal o Joaquim era um cidadão bem relacionado: ia a todas as inaugurações, a todos os casamentos, a todas as festas. Fazia aquele tipo que não despreza “boca livre”. De bom gosto, apreciava um uisquezinho, era sempre o primeiro, já com a boca salivando que se aproximava da mesa de frios. Apesar de muito usura punha um dinheirinho no bolso do garçom para ser bem servido

Alegre, distribuía alegria pela festa, mas, o presentinho jamais. Detestava rifas, livros de ouro e associações beneficentes. Impostos, sempre que possível, sonegava.

Lá pelas tantas, um reboliço no velório do cidadão. As flores, que não eram monsenhores mas outras, de primeira linhagem (a esposa exigira assim) começaram a se mover. Os mais piedosos e mais amigos se acercaram do esquife e, agora, mãos dadas, oravam no sentido do falecido se aquietar.

Foi o que aconteceu. A cabeça já não girava, olhos se fecharam. Pernas e braços se acomodaram. O subir e baixar do abdome também serenou. Inexplicavelmente só as mãos permaneceram fechadas.

Os que estavam ao redor reorganizaram as flores de primeira linhagem: orquídeas, copos de leite, camélias...

Sob o efeito do medo, o medo sempre silencia, principalmente os humanos, todos se calaram e só se ouviu a voz do Quinzinho, aquele do pozinho branco, procurando tranquilizar os presentes: - O papai estava só procurando as chaves. Chaves dos cofres e das gavetas.

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