Coroados do Rio Bonito

Edição: 581 Publicado por: Rodrigo Magalhães em 24/01/2018 as 10:12

 
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Logo que desembarcou no Rio de Janeiro, em 1º de junho de 1816, o francês Auguste de Saint-Hilaire dirigiu-se às proximidades da região de Valença, onde um fazendeiro reuniu alguns índios Coroados, que “habitam as florestas vizinhas do rio Bonito” (Pentagna), e rogaram que dançassem a fim de agradar o viajante europeu. Conta ele que, ao término da apresentação, o mais jovem, chamado Buré, mantendo-se de pé, dirigiu-lhe o discurso seguinte em mau português: “Esta terra nos pertence, e são os brancos que a cobrem. Desde a morte do nosso capitão, somos escorraçados de toda parte, e não temos mais nem lugar suficiente para repousar a cabeça. Dizei ao rei que os brancos nos tratam como cães e rogai-lhe que nos dê terras para podermos construir uma aldeia”. Trata-se do famoso cacique Bocumam, o capitão ao qual se refere o profético índio Buré.

Cientista de notáveis méritos, Saint-Hilaire era também um fino observador dos costumes, do modo de vida e das instituições dos povos por ele visitados no Brasil. Além de ir ao encontro dos índios Coroados do Rio Bonito em 1816, esse francês passou ainda por três oportunidades pelo Registro do Rio Preto: 1817, 1819 e 1822. O seu diário de viagem constituiu o esboço de extensa e importante obra posterior, em que está registrada parte considerável da memória histórica de nossa região. Segundo ele, até 1800 os Coroados eram os “senhores da região compreendida entre o Parahyba e o Rio Preto”. Além de habitar todo esse território que a seguir seria denominado de Sertão do Rio Preto, consta que esses indígenas “faziam incursões frequentes no território das parochias vizinhas”.

Vem de Saint-Hilaire a explicação mais aceita sobre a chegada desses índios à região de Valença e Rio Preto, bem como a respeito da origem do nome Coroados do Rio Bonito: “Parece certo que tiveram por progenitores os índios Goitacazes que, expulsos pelos portuguezes, por volta de 1630, dos campos vizinhos á foz do rio Parahyba no mar (Campos dos Goitacazes), se dispersaram pelas florestas de Minas e do Rio de Janeiro. Os Goitacazes não podiam conservar, em florestas quase impenetráveis, os hábitos contrahidos no meio de campos inteiramente descobertos; renunciaram á longa cabeleira, e o modo por que a cortaram lhes fez dar, por seus vencedores, o nome de Coroados”. E continua: “É bom acrescentar ao nome desses Coroados o de um rio que corre na sua região, o Rio Bonito, e chamá-los de Coroados do Rio Bonito. Por este meio, impedir-se-á confundi-los com os Coroados de Mato Grosso, com os de São Paulo e, ainda, com os Coroados do Rio Chipotó”.

Por fim, em sua última passagem por Valença em 1822, Saint-Hilaire observou em relação aos índios Coroados que, se “há apenas 50 anos eles possuíam toda essa região, onde nenhum branco teria, certamente, a ousadia de se mostrar, na época dessa viagem era no meio dos filhos de portugueses, feitos senhores do país, que erravam os escassos restos da sua nação”.

 

NOTA: em meu último artigo publicado (11/1) digo que “aparentemente” não existe nem mesmo rua relacionada a José Rodrigues da Cruz em Valença. Mas, felizmente, há.

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