“ O tempo não para”

Edição: 596 Publicado por: Gilberto Monteiro em 09/05/2018 as 08:49

 
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O telefone toca e é para mim. Do outro lado uma desconhecida tentando me localizar. Ela esclarece que atende a pedido de outra pessoa.

A outra pessoa, é Claudio, um contemporâneo de Faculdade. Passo o número de casa e a intermediária me dá o número de quem me procura.

Era de manhã e, até a hora do almoço, vou rememorando um tempo de cinquenta anos atrás.

A faculdade lá na Urca, aquele bairro que, ainda, é o mais tranquilo do Rio de Janeiro. A Praia Vermelha sem nenhuma poluição. O alojamento semi confortável, as boas refeições do Pentagno (restaurante da Universidade, gratuito, que atendia cinco unidades, Educação Física, Odontologia, Farmácia, Economia e Química). A nossa passagem pelo diretório acadêmico e os trancos, sustos, medos e preocupações numa época em que a ditadura militar se instalava no Brasil. O nosso convite de formatura censurado já que a capa trazia uma fotografia de crianças, quase nuas, brincando no barro e no lixo em plena favela. O Dops, nos intimando e só liberando o convite se acrescentássemos no pé da capa “Os diplomandos de 1966 se comprometem com o governo na participação do progresso do Brasil”.

O pensamento, essa máquina rápida e perfeita que nos permite, trabalhar e viajar, me leva a tantos outros fatos como o de conhecer Clementina de Jesus ali no teatro de Arena. Num show denominado “Rosa de Ouro”, ela era acompanhada de Beth Carvalho, Paulinho da Viola e do grande descobridor de talentos Hermínio Belo de Carvalho. O seu brilho e a sua descoberta tornando-a estrela maior.

Ainda o fato de me admirar com o tamanho do general De Gaule, passando de pé, em carro aberto, indo para as instalações do exército, no final da avenida Pasteur. O contraste entre a imponência de De Gaule e, no dia a dia, a simplicidade do quase paternal, Pedro Calmon, o magnífico reitor da universidade. Era tempo de intensos movimentos estudantis e, quase semanalmente, ele, uma figura amena e forte, conversava com os diretórios numa exigência transparente: não queira ninguém aprisionado no “campus” da universidade.

Eu, Claudio e Silas éramos a metade menos radical do nosso Diretório. Silas morreu há menos de quatro meses. Casada com Rolf, um alemão, era a grande amiga que, todo ano, no Brasil, nos visitava aqui em Valença.

Fico pensando nas recompensas que, na vida, a gente recebe: uns amigos adoecem e se vão, mas, na contrapartida, outros vão reaparecendo. Há pouco tempo, uma situação semelhante ocorria. Naquela vez, com um primo, que mora no Porto e depois de trinta anos me localizava.

Chego em casa para o almoço e imediatamente ligo para o Claudio que vive em Washington há quarenta anos. A comida esfria mas conversamos por quase uma hora. A recordação de “belos tempos”, de um tempo de juventude, é imensa. Ele se choca com a morte da Silas e, recompondo-se, me convida para encontro no Rio de Janeiro: a turma dele se reunirá para comemorar cinquenta anos de formatura e, eu, sou seu convidado.

Dia 14 de abril nos revemos. Todos com as marcas deixadas pelo tempo, rugas, barbelas, cabelos brancos uma ou outra dentadura. Nas “meninas”, hoje senhoras, ainda traços de beleza mas alguns quilos a mais. Felizmente nenhuma muleta ou bengala mas, a desagradável notícia do suicídio de outro contemporâneo.

Levo, para o Claudio, os meus dois livros. Presente simples com muito de mim. Discretamente passo-os a ele. Aí, uma enorme surpresa um rapaz, (rapaz?), o Takei, japonês que se formou na turma, saca da bolsa um livro e me pede para autografá-lo. Assustado, quase perplexo, pergunto como ele conseguiu. Como todo bom japonês, ele, calmamente, me explica: “ Sou rato de livrarias lá em São Paulo e numa delas ele estava, me lembrei do nome e folheei. Dentro, o seu retrato”.

Almoçamos, conversamos muito e eu pensando ter acertado em cheio no título “Engrenagem”, com o qual batizei o segundo livro. A engrenagem é uma constante nas nossas vidas.

Ninguém pediu álcool. Muitos faltaram: uma com forte crise de asma, outro com o bisneto grave, outra com pneumonia, outro cuidando de um inexorável câncer. Alguém desculpando-se pela ausência, é catedrático na Universidade do Recife. Agenda cheia.

A inesperada atitude do Takei me põe na berlinda. Agora, folheando os livros me perguntam: O que leva você a escrever? Todo o texto é escrito de uma só vez? Que cuidados você toma, já que a cidade é pequena, com o teor dos textos? Quando me perguntam pelo meu e-mail (estão organizando uma listagem pois querem receber o livro), digo que não gosto de celular e bem menos de internet. A menina(?) que está ao meu lado diz que sou um “interiorano ultrapassado”. Só respondo: - Enquanto você navega eu escrevo.

Na verdade, mesmo não estando numa turma que tivesse sido minha, a visita ao passado foi extremamente agradável. Ninguém, também, pediu sobremesa pois comemorávamos uma formatura de 1967.

“O tempo não para”, disse o grande Cazuza e a confirmação estava ali: na nossa pele, nas discretas corcundas, nos cuidados com a dieta. Só o coração, ainda aberto a um momento inigualável- o reencontro.

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