Memórias

Edição: 600 Publicado por: Marilda Vivas em 06/06/2018 as 08:26

 
Leitura sugerida

De novo, e penso que será sempre assim, ao debruçar-me sobre velhos papéis e desgastadas fotografias sinto que carrego algo não descartável, ainda que impreciso e simbólico.

Em momentos assim, recorro aos poetas. Os únicos, talvez, capazes de tangenciar a natureza da imprecisão e do simbólico esmaecidos pelo tempo. Contudo, é preciso que lhes semeiem pistas e, de resto não esquecer que Poetas são seres indigestos quando a noite se aproxima.

 

Coisas, Pequenas Coisas

Fazer das coisas fracas um poema. 

Uma árvore está quieta, 

murcha, desprezada. 

Mas se o poeta a levanta pelos cabelos 

e lhe sopra os dedos, 

ela volta a empertigar-se, renovada. 

E tu, que não sabias o segredo, 

perdes a vaidade.                                 

Fora de ti há o mundo 

e nele há tudo 

que em ti não cabe. 

 

Homem, até o barro tem poesia! 

Olha as coisas com humildade. 

                Fernando Namora (médico/escritor/poeta, 1919-1989), in “Mar de Sargaços”.

 

Ariano Suassuna (1927-2014)

Dono de um estilo próprio, fortemente recheado de humor e “causos” imaginativos, a insistência com que seus vídeos têm sido compartilhados nas redes sociais me instiga conhecê-lo mais de perto. Antes, confesso, meu contato com sua obra esteve restrito à versão para o cinema da clássica peça de teatro “Auto da Compadecida”. Calcada na tradição popular, a peça, considerada sua obra prima, foi escrita em 1955 e publicada em 1957.

Só para lembrar, a história gira em torno de dois amigos: João Grilo, ágil em seus pensamentos, conversador e astuto no mais que se possa; e Chicó, lento das ideias, propenso a uma boa dose de covardia, mas bom de coração. Juntos, os dois fazem uma parceria inesquecível na corrida pela difícil sobrevivência nordestina na época do cangaço.

Quem não se lembra de João Grilo, o anti-herói que vive ao sabor do acaso e das aventuras? O mesmo que não cansa de se envolver com as mais diversas personagens e de se comprometer com as próprias mentiras? Até o demônio se tornou presa fácil para sua astúcia. No entanto, é através dele que Suassuna, ao propor um exame dos valores sociais e da moral estabelecida, nos leva a refletir sobre a fragilidade e a fraqueza de nossas convicções.

Diz ele: “Sou um escritor de poucos livros e poucos leitores. Vivo extraviado em meu tempo por acreditar em valores que a maioria julga ultrapassados. Entre esses, o amor, a honra e a beleza que ilumina caminhos da retidão, da superioridade moral, da elevação, da delicadeza, e não da vulgaridade dos sentimentos”.

Ariano Vilar Suassuna nasceu em 16 de junho de 1927, na cidade de João Pessoa, Paraíba. De família abastada, seu pai, João Suassuna, que chegou a ser presidente do Estado da Paraíba (atual cargo de governador), foi assassinado em meio a Revolução de 30.

Poeta, ensaísta, dramaturgo romancista, professor e advogado, sua obra reúne, além da capacidade imaginativa, seus conhecimentos sobre o folclore nordestino. Sobre ele, há farta documentação disponível na internet. Surpreenda-se.

 Piada?

Ariano recebia inúmeros convites para realizar “aulas-espetáculos” em várias partes do país. Em uma dessas ocasiões, narra ele que dois loucos, ao se cruzarem no corredor do manicômio, travaram o seguinte diálogo:

- Ei, você! Não vai bater continência para mim?

- Bater continência? Por que eu bateria continência para você?

- Porque eu sou um General!

- General?

- Sim! General Napoleão Bonaparte.  

-E quem foi que lhe promoveu a General?

- Jesus!

- Eu!

 

Pois é

Reza a lenda que nos distantes reinos dos mamíferos de luxo, sem quaisquer rasgos de noção que os possam conduzir ao amor, a honra e a beleza que ilumina caminhos da retidão, da superioridade moral, da elevação, da delicadeza, e não da vulgaridade dos sentimentos, da autoridade máxima ao mínimo serviçal, arroubos simultâneos de Napoleão e Jesus são frequentes. Fora dos palácios, continuam as vendas.  

 

Nota datada

Até 29 de junho corrente, qualquer pessoa titular de conta do PIS/Pasep pode sacar os recursos que tiver. O prazo ainda pode ser estendido pelo governo até 28 de setembro. Estima-se que o pagamento das cotas dos fundos dos programas de Integração Social (PIS) e de Formação do Patrimônio do Servidor Público (Pasep) podem injetar perto de R$ 40 bilhões na economia do país, conforme dados divulgados pelo Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão.  

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