Rio Preto/RJ?!

Edição: 601 Publicado por: Rodrigo Magalhães Teixeira em 13/06/2018 as 09:35

 
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No final dos anos setecentistas, toda a extensa área situada defronte à antiga povoação do então Arraial do Rio Preto, na margem oposta do rio, pertencia tão somente a três proprietários: as terras situadas mais acima pertenciam a “Roque de Souza”, um fazendeiro (atual Bairro “dos Lopes”); um Padre chamado Antônio Vicente de Almada, oriundo de Aiuruoca/MG, era o dono do território situado em frente ao centro da povoação mineira do outro lado do rio, sendo que possuía “meia legoa de terras de cultura compostas de capoeiras e matos virgens defronte do presídio do Rio Preto (...) primeiro espigão por baixo do corgo ubá”; e, por fim, o terreno situado abaixo da foz do ribeirão Ubá (mais conhecido por “Peixinho”) era de propriedade de um militar, o “Tenente J. Pereira Ribeiro Toscano” (atual Bairro “dos Bastos”).

Nas últimas décadas do século XIX, no entanto, o avanço da estrada de ferro na direção daquelas paragens atraiu outros povoadores, principalmente imigrantes europeus ligados ao comércio. E o território que abrigara as três grandes fazendas rapidamente deu lugar a um incipiente arraial, logo após o primeiro desembarque do trem na “Estação Rio Preto”, em 1880... Nascia ali no final dos anos oitocentos um povoado homônimo, na margem fluminense do rio: Rio Preto/RJ. O topônimo Parapeúna – que em tupi-guarani também significa Rio Preto – somente em 1943 foi criado pelo historiador Matoso Maia Forte, em substituição à antiga toponímia de Rio Preto, então confundível com a vizinha cidade mineira do mesmo nome.

No início dos 1900, além da sólida edificação de dois pavimentos da estação, existia em frente uma casa de tom róseo destinada para servir de moradia ao chefe da estação (que nessa época se chamava “Seu Lock”, que no início dos anos 1920 foi substituído pelo Sr. Plínio Tavares). Fronteiro à estação existia um pátio de terra batida, onde transitavam animais, bestas de carga, carros-de-boi e carroças para o carregamento e descarrego de mercadorias na plataforma. Miguel Isseni, com sua carroça, e Manoel Parada, com seu carro-de-boi, executavam esse serviço à época. Estação e pátio ficavam isolados por cercas de trilho, na horizontal. Em direção a Santa Rita, paralela aos trilhos da Central, seguindo a Rua São Pedro existia, à esquerda, uma olaria de propriedade do Chucri Sahione (sírio-libanês); a seguir, havia uma vila de casas pobres, uma capela e um cemitério; à direita dos trilhos, algumas poucas moradias, entre elas o Cartório do Zé Goulart, a escola de uma só professora (Dona Laura), as vendas do Lauro Vieira e do Cosate (italiano) e o Hotel do Major Bahia (português).

Nas proximidades da estação, duas porteiras se abriam para o trânsito dos cavalos, tropas, carroças e carros-de-bois que se dirigiam para o “Estado de Minas”. A caminho da ponte de ferro, com piso de madeira, existia apenas uma trilha de chão batido no meio de um extenso gramado, tendo nas laterais duas belas e amplas edificações do final do século XIX, onde funcionavam dois grandes armazéns de secos e molhados. De um lado, tendo à frente alguns ipês amarelos, existia a “Casa Mazzeo” (prédio que atualmente abriga a “Casa Simões” e a “Cantina da Vovó”), que era de propriedade de um italiano chamado Vicente Mazzeo. Do lado oposto (onde hoje existe o prédio da Cooperativa Agropecuária) funcionava a “Casa Barbosa”, comandada pelo português Miguel Barbosa.

Fronteiro e mais próximo à venda do Barbosa, porém centralizado, existia ainda um belo chafariz junto a um grande e velho pau-d’alho. Era nessa espécie de Largo da Estação que o samba africano, ao som de atabaques, surgia nas noites frias das Festas Juninas. E os afrodescendentes, alguns deles remanescentes dos cativeiros e quilombos que existiram na região, entoavam cantilenas em suas línguas nativas! Também ali se exibiam nas festas natalinas, pulando e cantando, os palhaços e a catirina das Folias de Reis, e os violeiros e bandeireiros se despendiam com cantoria na Festa do Divino: Bandeireiros se despendem, as violas estão tocando, a folia vai s’imbora...

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