O lugar da fala

Edição: 603 Publicado por: Marilda Vivas em 27/06/2018 as 08:24

 
Leitura sugerida

Os conselhos de direitos das mulheres são conselhos temáticos que representam um grupo historicamente minoritário em termos de presença nos fóruns decisórios. Em geral, sua fundação depende da mobilização das mulheres e da consequente pressão sobre o poder público. O recorte de gênero da representação é a mais óbvia e importante particularidade desses conselhos que, em geral não possuem verbas, recursos humanos e infraestrutura para o funcionamento. Tudo isso é sabido e, mesmo assim, não é de todo desanimador. Independente da origem da representação, elas atuam em conjunto. E falam. Falam conforme seus gostos e suas necessidades. E o lugar da fala da mulher precisa ser respeitado. Como se diz: mexeu com uma, mexeu com todas visto que, contraditoriamente, a postura que deslegitima a luta das mulheres é a razão pela qual os conselhos de direitos das mulheres se organizam e passam a existir.

Dito isso, causa espécie os termos da “carta aberta sobre controle social e políticas para mulheres)” (sic) assinada pelo presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de Valença, Rafael de Oliveira Tavares. Veiculado em rede social, salvo melhor juízo, a carta tem por objetivo responder às Notas de Repúdio emitidas pelo Conselho Estadual e pelo Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, às quais fizemos referências na coluna anterior.  

Acovardada nos termos, a correspondência faz menção a uma “reunião ampliada nas dependências da câmara” na primeira quinzena de fevereiro, tendo como escopo os termos da Mensagem Executiva nº 44/2017 referente à recomposição do CMDIM-Valença. As referências às pessoas e aos fatos ali ocorridos praticamente não existem. Quantifica as pessoas sem citar seus nomes; sugere o teor, sem esclarecer uma linha sequer dos principais pontos discutidos na dita reunião ampliada “onde uma pessoa que se utiliza de possuir um MEI (microempreendedor individual) sentiu-se preterida quando fizemos a emenda inserindo a associação comercial...”, independência profissional das mulheres MEIs no mundo dos negócios. Meio doido isso. Me pergunto: a mulher microempreendedora individual não pode compor o CMDIM? A emenda foi feita com esse objetivo? Derrubar as MEIs do conselho e ao mesmo tempo impedir que esse segmento produtivo venha compor a sua diretoria?

Mais adiante, considero os termos da carta um delírio total: “destaco que existe uma corrente política de extrema esquerda, cargos de confiança de governos anteriores e ex-candidatos a vereador [no masculino] neste conselho que levou a essa moção, que refutam a participação de segmentos religiosos (principalmente evangélicos), por que (sic) não compactuam com a visão de mundo de algumas “esquerdistas”, um caso claro de intolerância religiosa”.      

Aqui a carta peca, e peca feio. Ignora o presidente que em 2014, ano em que o CMDIM foi reativado, a presidência foi ocupada por representantes de um segmento religioso. Aí, quem lê esse trecho fica sem saber se, ao destacar o “principalmente evangélicos”, a intenção da carta é fazer germinar um discurso de ódio em desfavor do CMDIM e/ou de suas conselheiras e, de quebra, acirrar o discurso de ódio entre as classes sociais valencianas? O termo esquerdistas entre aspas quando incorporado ao teor de uma carta aberta que pretensamente versa sobre controle social e políticas para mulheres é algo que preocupa.

Paulo Coelho (nunca me ocorreu citá-lo um dia) afirma que “de todas as poderosas armas de destruição que o homem foi capaz de inventar, a mais terrível – e a mais covarde – é a palavra”. E é covarde toda palavra que semeia discórdia. Os livros sagrados assim ensinam. É possível que o teor dessa carta se insira nesse contexto. Cada um que julgue por si.

O certo é que a autodeterminação do CMDIM-Valença foi jogada na lata do lixo pelo vereador-presidente da Comissão de Direitos Humanos, tendo recebido total apoio da Casa Legislativa.

A carta, redigida em papel timbrado da Câmara Municipal de Valença, precisa ter seu teor melhor esmiuçado. Ocupar o cargo de presidência de uma comissão parlamentar não coisa pouca. Um dia espero poder escrever o clima e a inspiração que levou o Gabinete da Vereadora Dra. Célia propor e aprovar a Comissão de Direitos Humanos naquela Casa.  

 

Paulo Coelho – A arma mais poderosa (2011)

De todas as poderosas armas de destruição que o homem foi capaz de inventar, a mais terrível – e a mais covarde – é a palavra.

Punhais e armas de fogo deixam vestígios de sangue.

Bombas abalam edifícios e ruas. Venenos terminam sendo detectados.

Mas a palavra destruidora consegue despertar o Mal sem deixar pistas. Crianças são condicionadas durante anos pelos pais, artistas são impiedosamente criticados, mulheres são sistematicamente massacradas por comentários de seus maridos, fiéis são mantidos longe da religião por aqueles que se julgam capazes de interpretar a voz de Deus.

Procure ver se você está utilizando esta arma. Procure ver se estão utilizando esta arma em você. E não permita nenhuma destas duas coisas.

Fonte: (http://g1.globo.com/platb/paulocoelho/2011/02/28/a-arma-mais-poderosa-2/)

 

O celular

 A comida no prato

tem o peso da fome do homem.        

Mas, a fome do homem sentado atrás do prato

tem um peso que não está no prato.

6 comentários

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Pâmella Rossy Duarte em 02/07/2018 às 15:06 disse:

Os fatos estão aí para quem quiser enxergá-los. Uma coisa é indiscutível "É muito difícil ser mulher neste país..." Marilda Vivas expressou com assertivade o que faz o patriarcado opressor. #mulheresdeluta #SORORIDADE Conselheira Pâmella presente!
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Fabi Abreu em 29/06/2018 às 13:46 disse:

Marilda Vivas, é maravilhoso ler seus comentários e aprender cada dia mais. Realmente és uma mulher que não veio ao mundo a passeio e nem por curiosidade, veio para lutar e vencer em nome daquelas que não têm voz, não têm vez... Obrigada por suas palavras e por ser esse poço de sabedoria e dividir tanto conhecimento conosco. ♀️ Fabielle Abreu - Companheira do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher - Valença Rj
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Ingrid em 29/06/2018 às 11:12 disse:

Sábias palavras, Marilda. Você soube resumir de forma clara, objetiva, sensata e respeitosa(elementos que faltaram nas palavras e cartas que nos dirigiram). Foi notável a raiva, desespero e despreparo nessa referida carta do vereador. Nesses momentos, em nível nacional, é que o feminismo se faz mais que necessário. Tentam nos diminuir, nos humilhar, dissiminar ódio, nos calar de várias formas, mas são nesses momentos que nos fazemos mais unidas do que nunca. Que nós mulheres possamos ter nosso espaço respeitado, que nossa existência não passe com mera insignificância como é para muitos. E não posso deixar de dizer isso, mas criticam a esquerda como algo ruim e mesmo assim usam palavras de luta que são ligadas a esquerda, ao feminismo principalmente. Então finalizo com: juntas somos mais, mexeu com uma, medou com todas, nenhum direto a menos e principalmente, Machistas não passarão e não vão nos calar! Ingrid, mulher, feminista, "bela, recatada e de luta" , psicopedagoga/professora e atual secretária do CMDIM. ✊
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Nancy Silva em 29/06/2018 às 09:52 disse:

Lindos textos, Marilda Vivas! Parabéns!!! Parabéns ao Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Valença também! Um abraço em todas as conselheiras!
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Aline Rodrigues em 29/06/2018 às 08:58 disse:

Acompanho o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher desde a época de sua reativação no ano de 2014. Parabéns ao Conselho e parabéns Marilda Vivas pelo posicionamento.
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FERNANDA DOS REIS MONTEIRO em 29/06/2018 às 08:45 disse:

Marilda Vivas é uma mulher de luta! É sabido o seu verdadeiro envolvimento com os movimentos sociais, com as políticas públicas e principalmente com os Direitos Humanos! O nome "Marilda Vivas" está escrito nas entrelinhas da propositura e aprovação da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara Municipal de Valença e como assessora na época, da nobre Vereadora Célia Wargas, participou ativamente também do processo de criação do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher! Marilda Vivas é história VIVA neste município e como toda boa história deve ser respeitada! História de luta e de garantia de direitos, história bonita de ser lembrada e mencionada! Me falta palavras para expressar tamanha admiração e respeito!! Tal posicionamento oriundo de uma mulher com tamanha bagagem cultural e política, muito nos honra! Honra o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Valença, honra todas as Conselheiras e Companheiras que acompanham o nosso Conselho e honra todas as mulheres do nosso município! O sentimento é de gratidão e orgulho! Fernanda Monteiro - Atual Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher - Valença / RJ
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