Brasil brasileiro

Edição: 609 Publicado por: Marilda Vivas em 08/08/2018 as 08:03

 
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Tempo fechado (1)

O número de pessoas que não trabalham e nem procuram emprego voltou a crescer no país. Segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da pesquisa Pnad Contínua (31/7), o contingente fora da força de trabalho chegou a 65,6 milhões, alta de 1,2% sobre o trimestre anterior e 1,9% (ou 1,2 milhão de pessoas) em comparação com o mesmo período de 2017. Do total de um milhão de empregos gerados no último ano, 92,2% são precários. Empregos precários, como se sabe, significam remuneração menor e renda estagnada.

 

Tempo fechado (2)

O Brasil de hoje, consolidado na emenda que instituiu um novo regime fiscal (congelamento de gastos sociais) para vigorar nos próximos vinte anos, valendo, portanto, até 2036 (EC 95, a PEC da morte), está mergulhado num retrocesso social sem precedentes em sua história. A falácia deste atual governo de que a economia, que teria sucumbido diante de um suposto comportamento fiscal irresponsável do governo anterior, voltaria a crescer não passou de um embuste.  Um embuste que tanto camuflou o desmonte da CLT/Consolidação das Leis do Trabalho quanto a entrega da Petrobrás a troco de bananas para corporações estrangeiras e a venda de largas extensões de terras a estrangeiros entre outros possíveis crimes lesa-pátria. E que estejamos preparados: ter barrado até aqui a privatização da Previdência Social não significa que isso não venha ocorrer até o final deste 2018. A entrega da Previdência Social para organizações financeiras privadas pode se dar por Decreto presidencial.

 

Pobreza extrema no Brasil

Entre 2016 e 2017, a pobreza extrema cresceu 11,2% e atingiu 14,8 milhões de indivíduos – de acordo com levantamento LCA Consultores feito a partir de micro dados da Pnad Continua do IBGE (abril/2018), adotando critérios do Banco Mundial que considera “extremamente pobre” quem vive com menos de 1,90 dólares (um dólar equivale a R$ 3,74, no momento em que escrevo). Façam as contas.

De 2014 a 2016, 12,1% da população passou a viver com menos de R$ 220 por mês. Para piorar o quadro, de acordo com pesquisadores da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) sete milhões de pessoas no Brasil não recebem qualquer tipo de assistência social e por isso o aumento da miséria extrema vem arrastando a nação de volta para o mapa da fome. E não sejamos ingênuos: o aumento do PIB nem sempre repercute no andar de baixo. Como argumentam aqueles que entendem do riscado, um país pode ter um aumento do PIB puxado pelas classes mais ricas, mantendo as classes mais pobres no mesmo patamar. E não será uma inflação baixa que vai tirar uma pessoa da extrema pobreza (ou colocar). No máximo, evitará que se perca a capacidade de consumo. (Carta Capital online).

Certo, também, é voltamos a desempenhar o papel de colônia e de país subdesenvolvido. Aqui se explora mão de obra barata e precarizada, produtiva ou financeiramente, como comprovam os lucros estrondosos dos bancos públicos e privados.

 

“Que país é esse?”

Me surpreende saber que a música de Renato Russo, nascida na ditadura militar, completa quarenta anos. Isso mesmo! Quarenta anos. Em princípio, a letra escrita em 1978 era executada pela banda Aborto Elétrico, durante festas em Brasília. A música foi lançada em 1987, já na época da Assembleia Constituinte, gravada pela Legião Urbana.

A banda Aborto Elétrico, além de abrir portas para diversas bandas, fundou o punk brasiliense e deu origem ao Capital Inicial e Legião Urbana, que estouraram nacionalmente na década seguinte. Leia mais. (Ivy Farias, in: Carta Capital online. Cultura).

 

A questão indígena avança a passos lentos

Em cidades do Mato Grosso do Sul (MS), o estado mais violento para os povos indígenas, têm sido frequentes os casos em que crianças guarani-kaiowá são retiradas de suas parentelas e conduzidas para os abrigos urbanos. Nesses abrigos, essas crianças sofrem um insidioso processo de vitimização: são vítimas por serem crianças e são vítimas por pertencerem à cultura indígena e os adultos tidos como “criminosos” (bêbados e preguiçosos).

Se por um lado a Constituição de 1988 reconhece aos indígenas costumes, línguas, tradições e direitos originários sobre as terras, por outro, práticas de desrespeito às condições sociais e culturais dos povos Guarani e Kaiowá sob ótica de superioridade da sociedade nacional frente à sociedade indígena.

Recentemente, um relatório divulgado pela Fundação Nacional do Índio (Funai) de Dourados oficializa as frequentes denúncias feitas pela Aty Guasu, grande assembleia Guarani e Kaiowá: crianças indígenas estão sendo retiradas das aldeias quase que semanalmente pelo Conselho Tutelar e levadas para abrigos da região Cone Sul do MS. A realidade foi denunciada pela organização indígena ao Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) e ao comissário da Organização dos Estados Americanos (OEA), em reunião realizada em novembro na capital federal.

“Esquece os costumes, esquece a língua materna, esquece, num movimento que pode ser facilmente caracterizado como estratégia de genocídio, porque tirar as crianças de um povo também é condenar esse povo a não ter futuro coletivo”, aponta o documento (cimi.org.br/2018).

“Mas o Brasil vai ficar rico / Vamos faturar um milhão / Quando vendermos todas as almas / Dos nossos índios num leilão”. (Renato Russo in: Que país é esse?).

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