Carambita & Romana

Edição: 615 Publicado por: Rodrigo Magalhães Teixeira em 19/09/2018 as 10:29

 
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14 de novembro de 1864. O vapor brasileiro “Marquez de Olinda” é aprisionado pelo ditador paraguaio Solano Lopez. Todos os tripulantes a bordo foram maltratados até a morte, com exceção de apenas dois que, milagrosamente, sobraram para relatar o ocorrido. Um deles era o Coronel Frederico Carneiro de Campos, um engenheiro militar muito estimado e conhecido em Valença, cidade para qual havia feito a primeira carta urbana, em 1836.

Assim sendo, logo que se iniciou a guerra do Brasil com Paraguai, moradores de Valença se mobilizaram e dezenas de “voluntários” foram aquartelados e depois conduzidos para a Corte, de onde seguiriam para a batalha. Um desses valencianos era filho de Maria Romana, uma ex-escrava que desde a alforria passou a viver nas proximidades do velho caminho que, pelo bairro Barroso, seguia para a vizinha cidade mineira de Rio Preto.

Era ali naquelas paragens que também residia um dos últimos índios Coroados que habitou solo valenciano, um remanescente da tribo Tanguara. Os colonizadores batizaram-no de Antônio. Vivia ali, ao lado de uma pequena descida desse caminho, numa grota, em meio a grandes pedras, de onde colhia o cará nativo para ir à cidade vendê-lo. Samburá no braço, ele percorria as ruas anunciando a sua mercadoria: “cará-mbi-ita”! (que na linguagem indígena significa “cará do buraco de pedra”). Os moradores achavam engraçada aquela cena, e com o passar dos anos aquele indígena se tornou uma figura benquista e folclórica em Valença. Tornou-se também o companheiro de sua vizinha Maria Romana, a ex-escrava. Os dois eram grandes devotos de Santo Antônio e todo ano faziam ali as “trezenas”, pontificadas por Romana que, em suas orações, sempre pedia notícias do filho que fora para a guerra!

Reza a lenda que Carambita apreciava demasiadamente uma cachaça e, na maioria das idas à cidade, regressava à choça embriagado. Um dia, uma forte tempestade inundou toda a região e um valo transbordou, morrendo afogado o pobre índio! Exatamente nesse local, Romana fincou uma cruz de madeira em homenagem a Antônio Carambita. Era ali que ela lavava roupa - o seu ganha pão. Do alto daquela serra descia o “rio das Laranjeiras” e, pela grande quantidade de pedras existentes no trajeto, a água chegava ali cristalina. E foi justamente ali que, tempos depois, Romana reencontrou o seu filho que havia ido lutar no Paraguai... São e salvo!

Romana então decidiu levantar ali, no mesmo local da antiga cruz de madeira, uma pequena capela em homenagem a Santo Antônio. Além de lavadeira, Romana também era engomadeira das boas. Quando D. Pedro II veio a Valença para participar da festa do Divino, ela fora a mais solicitada. Por isso conhecia as senhoras da sociedade local. Como por exemplo, D. Merenciana, esposa em 2º matrimônio de Domingos José Nogueira, abastado proprietário da Fazenda Bem Posta. Ao passar em sua imponente carruagem pelo local e ouvir as histórias ocorridas ali, D. Merenciana doou a porta, as janelas, as telhas e toda a madeira para o telhado da humilde capela que já havia principiado, à custa de esmolas conseguidas por Romana. E, em 1888, foi finalmente inaugurada a capela de Santo Antônio do Carambita, o santo de devoção de Romana, que ainda hoje é festejado no bairro que carrega o nome de seu companheiro!

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