O caso Domingos Moçambique: adultério e forca

Edição: 625 Publicado por: Rodrigo Magalhães em 28/11/2018 as 10:51

 
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1849. A cidade de Valença presenciou a 27 de julho pela primeira vez uma execução patibular. Ao terror da novidade acresceu a consternação geral na maioria dos moradores da então vila de que o Réu ia inocente... Agira em legítima defesa da honra, diziam na época!

Domingos Moçambique, natural da Costa d’África, era um simples escravo de José Gomes da Rocha, fazendeiro de Valença. Ele era casado com a bela africana chamada Carlota, escrava na mesma fazenda, onde igualmente vivia Diogo Ventura da Rocha, filho do dono daquela fazenda e também proprietário do mencionado casal de escravizados. Diogo era um moço forte, galanteador e destemido. Após algumas investidas, conquistou o coração de Carlota, com quem passou a ter frequentes encontros amorosos na fazenda.

Moçambique tinha as suas desconfianças que, com a indiferença e desprezo de Carlota, com o tempo se transformaram em angústia e sede de vingança. Com receio de ser ela a vítima de um assassinato, Carlota convenceu o marido de que era Diogo quem a perseguia e molestava. Afirmando-lhe sua inocência, ela induzia Moçambique ao crime. E, no silêncio da noite de 21 de abril, ele adentrou a casa grande da fazenda e, uma vez no quarto de Diogo, o mesmo onde aconteciam os encontros adúlteros, aproveitando-se que o próprio dormia em sono profundo, desferiu-o golpes com um machado. José Bernardino da Silva se encontrava no mesmo quarto e presenciou o homicídio, razão pela qual rapidamente o escravo Moçambique foi preso. Carlota, interrogada, confessou o adultério, o que levou muitos moradores da Vila a acreditarem que o escravo traído teria agido em legítima defesa.

Às 10 horas da manhã do dia 12 de maio iniciou a sessão do júri. A Casa de Câmara e Cadeia estava completamente lotada, inclusive o lado de fora, onde uma multidão de curiosos se concentrava na praça (atual Visconde do Rio Preto). Interrogado pelo juiz, Dr. Alexandre Joaquim de Siqueira, Moçambique confessou que foi o autor do homicídio praticado contra o filho do seu senhor, porque esse vivia com a sua mulher. Ao final do dia, os jurados votaram pela condenação do Réu à pena de morte. A sentença foi então encaminhada ao governo provincial a fim de que o Imperador se manifestasse a respeito, e Sua Majestade confirmou o enforcamento de Moçambique.

No dia 27 de julho de 1849, às 10 horas, um cortejo saiu da Casa de Câmara e Cadeia (Praça Visconde do Rio Preto) em direção à Praça das Execuções (atual Conde de Baependi), onde se erguia a forca. Com o escravo Domingos Moçambique, preso, à frente, seguido por policiais, oficiais de justiça, escrivão e pelo juiz, toda a população valenciana assistia atônita à primeira execução em praça pública de sua história.

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