Cineastas das desgraças...

Edição: 627 Publicado por: Gilberto Monteiro em 12/12/2018 as 08:23

 
Leitura sugerida

Mãe que trabalha fora e faz dupla jornada. Escola pública no desamparo, professor ganhando pouco e desmotivado. Tratamentos de saúde reduzidos. Invasão brutal das drogas, agora pelo interior. Comunicação desorientadora que vai invadindo as casas e se transformando na rainha do lar. O celular que domina, que absorve, que vicia. O desemprego e a falta de percepção de que, mesmo o emprego estando minguado, trabalho existe.

Um grande somatório, do qual muitos não escapam e que vão desenvolvendo uma dose de inveja, de desesperança, uma ponta de fracasso, uma ponta de revolta.

Os dias passam e o descambar para o mal vai aumentando. A luta interna se trava: ficar paralisado ou avançar. Agredir, assustar ou lutar!

A família e a escola perdendo força e, cada vez mais, ganhando campo, o outro lado – o banditismo.

As cidades vão se transformando. Agora são pequenas mas diferentes: a liberdade vai desaparecendo, a preocupação e o medo, pouco a pouco, se instalam. Já não se vive uma cidade de janelas abertas. De portas destrancadas. De moças que, despreocupadamente, voltam sozinhas, noite adentro, dos bailes.

É um mundo diferente: moderno, injusto, violento.

Hoje, o sol está quente. A manhã esplendorosa. A cidade já se prepara para o Natal. Vitrines enfeitadas. O recomeço tão esperado, vem aí

O vai e vem é então surpreendido: um rapaz de vinte e poucos anos, está praticando uma bandidagem. A polícia chega e, após tentativas diversas, dispara. O homem cai morto.

Forma-se um grande círculo e ouvem-se muitas palmas. Palmas que comemoram. Crianças passam. Talvez Papai Noel tenha passado também e deixado só o corpo inerte no asfalto. Deu-se a libertação, na manhã ensolarada.

Celulares espoucam em fotografias. São os cineastas da desgraça colocando Valença no mundo. Divulgando essa desgraça que não sabemos, até onde nela, está enterrado o nosso umbigo. Umbigo de indiferentes que votam mal, que negociam o voto. Que colaboram pouco na elaboração de tempos melhores.

Muitas palmas e muitas fotos!

No dia seguinte, o presidente eleito parabeniza a polícia valenciana, ela de fato, fez o que precisava.

Ele, no entanto, deveria estar trabalhando e discutindo ações que, no futuro justifiquem palmas.

0 comentários

avatar
Escreva seu comentário...
Seu nome...
Seu email...