Chindê há leká Valença (Cachorros puris em Valença)

Edição: 628 Publicado por: Sonia Ortiz em 19/12/2018 as 10:03

 
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Na semana passada, a agressão ao cachorro de rua Manchinha, levando-o à morte, entristeceu a muitas pessoas que amam os animais. Sempre me encantou o cuidado do valenciano em proteger os cachorros de rua, organizando até eventos para arrecadar alimentos e cuidados.

Desde que vi aquela gravura feita pelo príncipe Wied Neuwied, retratando uma família de índios Puri no vale do Paraíba, pensei que essa cultura de ter cachorros domesticados era mais antiga do que os valencianos supunham.

 

Na gravura da década de dez do século XIX, feita pelo príncipe Wied Neuwied, há uma casa puri ou nguara com folhas de helicônia ou patioba apoiadas sobre uma vara presa em duas árvores. Sob ela uma índia parece moquear uma ave sobre uma fogueira enquanto um índio descansa deitado em uma rede. Em primeiro plano, aparece um cachorro deitado que possui umas riscas escuras no pelo. Isso me intrigava, pois um amigo historiador me dissera que os índios não tinham cachorros. Então o que fazia aquele animal naquela gravura? Soma-se a isso o depoimento de um amigo índio Botocudo que relatava que os cães puris comiam os guerreiros botocudos mortos depois das batalhas.

Havia pesquisado sobre cachorros e índios e encontrara fotos de índios americanos com lobos domesticados e refletia: haveria cachorros neste continente antes dos ibéricos chegarem? Curioso, que outra gravura de von Martius representando animais da floresta brasileira continha, entre outros animais, 3 cachorros embaixo de uma árvore acuando uma onça. A própria capa do livro traz von Martius ao lado de um cão. Nenhum desses animais se assemelha ao cachorro do mato com orelhas curtas e pescoço alongado (Atelocynos microtis) como o que foi fotografado recentemente por Gilberto Nascimento no Parque Nacional da Amazônia e publicado a 9 de novembro. Não seria também o chamado cachorro vinagre.

Paleontólogos encontraram vestígios de um cão que viveu há mais de um mil e quinhentos anos à margem da Lagoa dos Patos. Testes de DNA nessa ossada indicam que era de cão domesticado, com pelagem escura, cara de mau e porte médio como os doberman e comiam peixe. Ora, então eles já estavam aqui antes de Cabral e aqueles cachorros poderiam não ter sido doados pelos portugueses como meu amigo dizia. Afinal, a Lagoa dos Patos é logo ali.

Se ainda há Puris de São Paulo a Espírito Santo, essa cultura podia ser bem antiga. Aquele cachorro magro e riscado dos puris em nada se assemelha aos enormes cachorros que Colombo trouxe para a América em 1493 e nem aos que os portugueses trouxeram para o Brasil para caçar e matar índios posteriormente. Havia também citações de von Martius, que percorreu o Brasil de São Paulo à Amazônia de 1817 a 1820, as quais se referiam aos frágeis e mansos cachorros dos puris como cães que não latiam e ajudavam os guerreiros a caçar onças.

Quando encontrei na feira de Valença um cachorro semelhante fiquei surpresa. O cão era marron alaranjado e tinha aquelas listras marrons escuras como na gravura. Mais intrigada fiquei quando encontrei em Paraty, deitada na mesma posição da gravura, outra cadela com as mesmas características. Isso já não era coincidência e parecia que a sorte me perseguia, os cachorros desse tipo se esbarraram em mim em Santa Rita, em Penedo, e muitas vezes em Valença e Conservatória.

Eu tive um cachorro assim na minha infância, que não latia como descrevera o historiador, mordia sorrateiramente o intruso que adentrasse nosso quintal. Chamávamos de Ferrugem, pela sua cor e pelas manchas que denotavam estar enferrujado. Agora, cada vez que encontro um vira-latas como o Ferrugem, arrisco um palpite: os cães vira-latas valencianos têm pedigree, são Cachorros Puris.

 

Veterinários que pesquisem, pois chindê há leká Valença (cachorros puris estão em Valença).

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