Uma sociedade leniente

Edição: 340 Publicado por: Hélio Suzano em 09/05/2013 as 14:31

 
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Neste final de mês, fomos chamados a prestar contas ao temido Leão da Receita Federal. Este imposto é com certeza o mais importante do sistema tributário brasileiro e, também, com certeza, um dos mais odiados e sonegados. Vivemos numa república de impostos e taxas absurdas e de uma sonegação mais absurda ainda. É o famoso “jeitinho brasileiro” que vai dando corpo às distorções e gargalos deste país continental. Relações cambiantes, ambíguas, repletas de paixão e ódio que a cada geração, mesmo na tensão, vão construindo referências culturais que consolidam esta “ética pernóstica” brasileira.

A recente decisão do Supremo Tribunal Federal de condenar os responsáveis pelo Mensalão durante o primeiro mandato de Lula talvez venha limpar a garganta da impunidade na historia brasileira. A sensação de impunidade é uma realidade triste em nosso país e, a prevalecerem às penas de prisão, podem ser um marco na evolução do processo democrático e da afirmação de uma nova mentalidade.

Todavia, entendo eu, que o processo em que se baseia a corrupção e seus tentáculos perversos, exige uma mudança ética no país. A sociedade brasileira é por demais leniente com a corrupção. Ela costuma dar muita ênfase à falta de ética na política, ignorando que a falta de ética começa no seio da sociedade, refletindo em todos os setores, desde as pequenas transgreções rotineiras como sonegar impostos, até a corrupção de policiais e de Juízes. Para uma verdadeira mudança na rotina dos desvios de conduta no campo político é fundamental mudar a própria sociedade.

A chave para essa mudança está exatamente na postura que o cidadão comum tem em relação ao seu meio. Uma postura baseada no cuidado com o outro, com a coletividade. Uma preocupação externada com o todo e não apenas consigo próprio. Largar mão da arrogante postura de perfeição e aceitar que somos capazes de muito, mas também de pouco. Essa postura tem que trilhar o caminho da conscientização, do “eu acredito” e não apenas porque um código diz que é ilegal. Eu não sonego porque acredito que sonegando estarei prejudicando toda a sociedade.

Aqui em Valença, para se conseguir um cupom fiscal no comércio, por exemplo, causam perplexidade aqueles que se habituaram a sonegar do governo como medida correta e rotineira sem conseqüências maiores. Estas raízes profundas estão fincadas neste fértil terreno de baixa escolaridade e pouca consciência civil. Esta semana mesmo, me deparei com o pedido de ajuda de um professor com duas matriculas que, entretanto, não dá aulas há um bom tempo por conta de sucessivos “atestados médicos”. Agora, sob investigação administrativa, o mesmo vem acuado pedir ajuda. Ora, quem não deve não teme. Mas, pelo jeito o nosso professor teme e muito. Isso também não é corrupção?

Eu quero saber que geração estamos construindo para o futuro do Brasil. Uma geração de gente com atitudes, com ideais, convicta de seu papel na sociedade? Ou uma geração de omissos, lenientes com os pequenos desvios, ativistas das redes sociais que no final legitimam a grande corrupção? Quando baixamos música na internet ou facilitamos uma furada de fila no banco, ou entramos numa fila de idosos mesmo estando em plenas condições físicas e psíquicas para a fila comum, estamos sim corroborando com a corrupção.

O que aqui escrevo é apenas bom senso. Os desvios da ética não estão apenas na política e no Judiciário, mas sim no nosso dia a dia. O grande alarido criado pelos escândalos de corrupção Brasil à fora acaba por tirar o foco da corrupção mais frequente praticada pelos cidadãos: os desvios de conduta.

As relações humanas com seus atropelos e desvios de conduta pavimentam o cenário das relações políticas. Para encarar o palanque de 2014 e depois 2016, a classe política - valenciana e fluminense - terá que se aproximar do mundo real. E a melhor coisa para isso é encarar de frente 2013 e seus desafios.

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